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Mobilização pelo clima rumo à COP25

A próxima cimeira do clima arranca esta semana em Madrid, numa altura em que já poucos acreditam ser possível cumprir as metas deste século para travar a catástrofe climática. Neste dossier ouvimos ambientalistas, divulgamos o manifesto da contracimeira e promovemos o debate sobre alternativas. Dossier organizado por Luís Branco.

No arranque da 25ª Conferência das partes à Convenção quadro das Nações Unidas sobre as alterações climáticas (COP25) — a cimeira que serve para acompanhar a concretização dos compromissos assumidos pelos países para evitar as alterações climáticas — não há grande volta a dar quanto ao balanço do que foi feito desde 1992. Foi nesse ano que os governos se juntaram no Rio de Janeiro para deixarem promessas de como iriam cuidar do planeta e muitos dos jovens que participam hoje nas greves climáticas estudantis por todo o mundo ainda nem eram nascidos.

Mais de um quarto de século depois, os cientistas do clima já deixaram o aviso de que só muito dificilmente se evitará um aquecimento da temperatura média global acima das metas traçadas até ao fim do século. Isso coloca ao planeta um cenário de destruição anunciada, com milhões de pessoas deslocadas devido à subida do nível do mar, das vagas de calor ou dos fenómenos meteorológicos extremos que se tornaram cada vez mais frequentes.

Com os governos dominados pelo lóbi dos combustíveis fósseis, que procura por todos os meios evitar que o seu negócio predador do planeta seja ameaçado, ambientalistas como Francisco Ferreira, fundador da associação Zero, reconhecem que mesmo no cenário mais seguro apresentado pelos cientistas do IPCC, “é extremamente difícil” cumprir as metas de descarbonização propostas, dado o historial recente. Sinan Eden, da Climáximo, tem ainda menos esperança no que se vai passar dentro da cimeira de Madrid: “será igual ao que saiu das 24 cimeiras anteriores: nada. Só que cada vez ficamos com menos tempo”, avisa. Neste dossier quisemos ouvir as perspetivas destas duas gerações de ativistas ambientais sobre o momento atual e publicamos o apelo à participação na manifestação de 6 de dezembro e na Cimeira Social pelo Clima em Madrid, de 7 a 13 de dezembro. A participação portuguesa está a ser preparada por dezenas de coletivos e o Bloco de Esquerda também organiza uma viagem a Madrid no dia da manifestação, com partidas de Lisboa e Porto no dia 5 às 22h e regressos no dia 6 no dia 8 (inscrições aqui).

Neste dossier, o autor ecossocialista Daniel Tanuro faz um balanço negativo “de A a Z” das 24 COP realizadas até hoje e conclui que sem um plano de urgência que mude radicalmente a economia e a organização da sociedade, a catástrofe é mesmo inevitável. Uma das propostas que desenvolve é a da redução da jornada de trabalho até duas horas por dia nos países da OCDE, sem perda de salário e de direitos. Esse tempo basta para produzir tudo o que realmente necessitamos, defende Tanuro, enquanto o planeta fica a salvo de mais poluição. 

Ainda a propósito da relação entre ambiente e trabalho, a proposta do Green New Deal protagonizada por Alexandria Ocasio-Cortez nos Estados Unidos tem sido objeto de debate, mas também de muita caricaturização. No seu artigo publicado neste dossier, Aviva Chomsky reflete sobre a forma como a direita e os media norte-americanos têm distorcido as críticas vindas do mundo laboral a uma proposta que tem muito de criticável até do ponto de vista dos movimentos ambientalistas.

Se proteger o planeta implica reduzir a produção e os transportes, também obrigará a repensar a forma como concebemos a tecnologia, defende o economista espanhol Daniel Albarracín. Afastando as ilusões vendidas pelo capitalismo verde acerca de uma nova revolução industrial, o autor desenvolve aqui a necessidade de sucessivas transições energéticas, que terão de ser conduzidas por profundas transformações sociais e políticas. 

É preciso não esquecer que esta cimeira deveria ter tido lugar em Santiago, no Chile, um país que vive uma convulsão social por causa das políticas neoliberais que agravaram a miséria e a desigualdade. O presidente Piñera não quis que os dez mil participantes testemunhassem a repressão brutal sobre o povo chileno que já fez dezenas de mortos, mas o movimento que preparava a contracimeira não baixou os braços. Publicamos neste dossier a resposta do movimento global pela justiça climática ao cancelamento da cimeira no Chile.

Por fim, juntámos dois artigos já publicados no esquerda.net e que têm vantagem em ser lidos em conjunto com o resto dos textos originais: o do cientista Keith Shine, que resume o último relatório do IPCC sobre os quatro cenários para limitar o aumento da temperatura média global a 1.5ºC; e o de outro cientista, Wolfgang Knorr, que põe em causa a forma como a ciência climática apresenta os seus trabalhos e conclusões, defendendo que prestariam um melhor serviço à humanidade neste momento crítico se se concentrassem nas vulnerabilidades do planeta a curto prazo em vez de projetarem cenários a largas décadas de distância. 

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Resto dossier

Mobilização pelo clima rumo à COP25

Neste dossier ouvimos ambientalistas, divulgamos o manifesto da contracimeira e promovemos o debate sobre alternativas. Dossier organizado por Luís Branco.

Manifestação em Lisboa da greve climática estudantil

A esperança dos ambientalistas está na mobilização fora da COP25

Enquanto os governos continuarem a não agir perante os avisos dos cientistas, é a mobilização cidadã que pode garantir uma inversão do rumo das alterações climáticas. Francisco Ferreira, da Zero, e Sinan Eden, do Climáximo, falaram ao esquerda.net sobre o que podemos esperar dentro e fora da COP25.

esculturas de gelo

De COP em COP, o cataclismo aproxima-se

Os debates inacabados nas anteriores cimeiras mostram que o problema é sempre o mesmo: o de, na prática, anular com uma mão os compromissos de princípio que foram assinados com a outra mão. Artigo de Daniel Tanuro.

Apelo à participação na Cimeira Social pelo Clima em Madrid

Texto do apelo subscrito por centenas de organizações que irão participar na manifestação de 6 de dezembro em Madrid e nos debates e iniciativas que terão lugar de 7 a 13 de dezembro na Cimeira Social pelo Clima na capital espanhola.

chave de fendas

Critérios para uma tecnologia compatível com a transição energética e a mudança de modelo produtivo

Neste artigo, o economista espanhol Daniel Albarracín defende que devemos incluir na agenda política o debate sobre a configuração da tecnologia existente ou vindoura, sublinhando a necessidade de introduzir objetivos sociais e critérios ambientais no seu desempenho. 

Green New Deal: Emprego, meio ambiente e um planeta em crise

Neste artigo, Aviva Chomsky analisa o debate em torno da proposta do Green New Deal e da divisão alimentada pelos media conservadores entre a esquerda ecologista e a esquerda sindical.

Trabalhar duas horas por dia para salvar o clima e a biodiversidade

Para evitar o cataclismo, é preciso urgentemente “produzir menos, transportar menos, partilhar mais”. Esta reivindicação está no centro da alternativa ecossocialista que hoje é necessário desenvolver com toda a urgência. Artigo de Daniel Tanuro.

Relatório do 1.5ºC do IPCC: o que diz a ciência climática

Se quisermos limitar o aquecimento global provocado pelos humanos a 1.5ºC no fim do século, teremos de cortar as emissões de CO2 em 45% nos próximos 12 anos, diz o relatório do painel de cientistas da ONU. Artigo de Keith Shine.

Expedição científica no Ártico

Cientistas do clima: a nossa profissão está a desapontar a humanidade

Neste artigo assinado por Wolfgang Knorr, o investigador em geografia e ciência dos ecossistemas defende que os cientistas devem concentrar-se nas vulnerabilidades do planeta a curto prazo.

 

Resposta do movimento global pela justiça climática à alteração do local da COP25

A convulsão social no Chile contra a política neoliberal que fez crescer a miséria e a desigualdade pela mão do governo de Sebastián Piñera teve como resposta a repressão brutal. Por entre dezenas de mortos e um país nas ruas, o presidente chileno decidiu renunciar à organização da COP25.