You are here

Simplesmente obsceno

Lembrem-se: a Besta da extrema-direita e do fascismo é corporizada por bestazinhas bem apessoadas que transformam a política numa obscenidade!

Lembram-se? Havia um naco de areia, uma língua de mar e, em primeiro plano, jazia Alan Kurdi, de bruços, t-shirt vermelho vivo, calções azuis e sapatos. Tinha apenas três anos e, juntamente com o pai, mãe e irmã, fugia da violência, da guerra, do abuso, da humilhação, da atrocidade, da fome. Abdullah, o pai – único sobrevivente desta família – tinha entregue 5 mil dólares emprestados aos contrabandistas que os meteram num barco para seis pessoas, sobre as quais amontoaram mais 7 – “número revisto em baixa”…

Lembram-se? Como nós nos indignámos! Quantas juras de “nem mais um(a)” foram feitas por governos, instituições, entidades, cidadãos(ãs) comuns! Quantos posts, twitters, sms’s, notícias, comentários e análises foram trocados! Quantas “Uniões Europeias” sonhámos, quantas, desde que não fosse esta, esta mesma que teima em transformar o Mar Mediterrâneo no mais monstruoso cemitério a céu aberto que existe (existirá?), apelidando esta chacina de “medida de defesa do nosso modo de vida”!

Lembram-se? Nos últimos anos, morreram 17 mil pessoas, na travessia do Mar Mediterrâneo, grande número delas bem depois de Alan Kurdi, a mãe e a irmã terem soçobrado à política securitária, persecutória e indecentemente desumana de muitos governos europeus, com o apoio envergonhado de outros que se abstêm por caridade e se tentam justificar pela cumplicidade.

Lembram-se? Também durante os últimos anos, dezenas e dezenas e dezenas de milhares de condenados(as) à morte por afogamento foram salvos (literalmente, contra tudo e contra todos), por organizações não-governamentais, constituídas por pessoas que deixaram de poder dormir à noite, face a este assassinato em massa, consentido, aplaudido e pretensamente justificado. E porque decidiram lutar contra a ignomínia, largas dezenas deles(as) estão confrontados com acusações de pertencerem a associações criminosas e/ou prestarem auxílio à imigração ilegal. Por via disso, muitos deles(as) confrontam-se com penas que podem chegar aos 20 anos de cadeia e com multas entre 300 mil e 900 mil euros!

Lembram-se? Há poucos dias, a maioria dos/as eurodeputados/as eleitos/as para garantirem a Europa “solidária e igualitária” chumbou uma Resolução do Parlamento Europeu que propunha a criação de mecanismos de proteção de vidas no Mediterrâneo. O objetivo era (é) claro como água: se uma, duas, cem, mil, 300 mil pessoas ou mais enfrenta a iminência da morte por afogamento, em vez de olharmos para o lado, de fecharmos os portos à entrada de moribundos, de negarmos assistência e socorro a quem precisa, de criminalizarmos pessoas e organizações que trabalham para salvar estas vidas, devemos, simplesmente, comportarmo-nos como seres humanos: fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para salvarmos quem morre à nossa frente! E não, não teremos tempo de lhes perguntar se são “migrantes económicos” ou “refugiados”! Basta-nos perceber que têm cabeça, tronco, membros e não respiram por guelras!

Lembram-se? A maioria parlamentar para o chumbo da referida Resolução foi obtida pelos votos de dois eurodeputados portugueses - povo que, ao longo de décadas, arriscou a vida e morreu, na busca de melhores condições de vida!

Então, lembrem-se: a Besta da extrema-direita e do fascismo é corporizada por bestazinhas bem apessoadas que transformam a política numa obscenidade!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, entre 2008 e 2018.
(...)