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Espanha: o centro é um zombie?

As forças mais reacionárias dos dias de hoje, os portadores do ódio contra as mulheres, contra os migrantes e contra os direitos sociais, são precisamente os mais liberais na economia.

As forças mais reacionárias dos dias de hoje, os portadores do ódio contra as mulheres, contra os migrantes e contra os direitos sociais, são precisamente os mais liberais na economia (o Vox é ultraliberal e, a imitá-lo de pé ligeiro, o programa de André Ventura propõe o fim das prestações de serviços pelos hospitais e centros de saúde públicos, por exemplo).

O resultado das eleições espanholas de 10 de novembro é um susto. Talvez não fosse de esperar outra coisa e já se adivinhava na última semana, mas em todo o caso o recado é claro: o que ficou foi este resultado de aprendizes de feiticeiro à solta, depois de brincarem com a paciência dos eleitores e de jogos políticos de ambição partidária rasteira, culminando num ambiente de degradação de regime que faz a festa da extrema-direita.

A forma como Pedro Sánchez, que tem tido nas mãos a chave da política espanhola, se passeia alegremente por estes cenários de desastre, consegue ser sempre surpreendente. Promete agora uma solução rápida, mas que seria até ao final do ano, depois de ter falhado a maioria absoluta (um dia teremos que falar sobre esta ambição fanática dos partidos socialistas sobre a maioria absoluta) e de ter terminado o dia em piores condições para formar Governo. Mesmo que aceite agora a coligação com o Podemos que rejeitou há semanas, para provocar eleições, só lhe restam agora soluções impossíveis para conseguir uma maioria suficiente: 165 deputados seria a soma da coligação PSOE-Unidas Podemos-PNV-Mas Pais, mas faltam 11 para a maioria parlamentar; e procurar o apoio da Esquerda Republicana da Catalunha é impossível ao PSOE dado o seu próprio discurso espanholista, bem como recorrer ao Ciudadanos parece impossível dada a contradição com os outros partidos dessa putativa coligação. Teremos tourada.

Há em tudo isto duas consequências que vão assombrar os nossos próximos anos e que merecem reflexão, enquanto ainda não é tarde demais. A primeira é que o centro se está a tornar um zombie. Tem elevado a parada para ganhar tempo: lembra-se da “frente progressista” que, na Europa, ia ser a barreira contra a extrema-direita? Terminou antes de começar, dissolvida em arranjos maquiavélicos para a Comissão Europeia e em sabotagens mútuas entre sociais-democratas e liberais, com Macron a fazer de conspirador-mor e a brindar com Orban. Lembra-se de outro país em que o argumento foi que ou havia maioria absoluta ou seria impossível governar? Ora, ao refugiar-se no dramatismo como razão eleitoral, o centro está a fugir da política que conta para as pessoas. Não se propõe fazer nada, não tem um plano, não tem uma solução, só tem uma exigência, quer o poder. O argumento que resta é este, o país está aflito mas o meu partido está acima de tudo. Essa forma de atuar é leprosa e não vejo que haja a menor intenção de a modificar. Perante a pressão, o centro-zombie foge para o lugar onde foi feliz, a recapitulação do discurso confortável das instituições europeias, sem se dar conta de que elas são vistas por uma parte da população como um ninho de faz-de-conta, perdidas que estão na discussão sobre como prometer amanhãs que cantam enquanto vão tecendo os cortes orçamentais. Tudo se resume então a uma corrida pelo túnel, que é sombrio e não se sabe onde leva, mas isso é problema para outros e não para o curto-prazismo que entretém os governantes cuja vida se resume à arte de adiar.

A segunda revelação desta crise espanhola é a deslocação radical da direita. Dizia um dirigente da direita portuguesa que não queria ficar na situação em que depois de nós só há a parede. Ora, já passaram essa fase e já não há parede, e isso tem consequências. Este é um movimento irreversível, que revelou a sua profundidade com o sucesso de Trump, ou com Modi, ou com Duterte, ou com Orban, ou com Bolsonaro, ou com Salvini, ou com Boris Johnson. Disto não se volta atrás. O processo tem uma entoação na extrema-direita e lembremo-nos de que, quando cresceu, foi sempre assim que ela se alimentou da vacuidade, dos tropeções e das cedências da direita e dos liberais, ou da ausência da esquerda. Aliás, as forças mais reacionárias dos dias de hoje, os portadores do ódio contra as mulheres, contra os migrantes e contra os direitos sociais, são precisamente os mais liberais na economia (o Vox é ultraliberal e, a imitá-lo de pé ligeiro, o programa de André Ventura propõe o fim das prestações de serviços pelos hospitais e centros de saúde públicos, por exemplo). Chegou em vários países o tempo dos comentadores de futebol, dos entretainers, dos influencers, dos milionários, dos desportistas reformados, de militares e juízes, de todos os que aspiram a um lugar que lhes dê o hábito que faça o monge, serão os candidatos do apocalipse. O que sugere o pior dos cenários políticos para os próximos anos: direitas sem parede e que se mesclam nos ódios instrumentais ou nos processos sociais agressivos, o que assegura que os porta-vozes do capital e dos negócios sejam quem quer que consiga elevar-se nos truques que arrasem uma eleição. Só que, se vale tudo, a democracia deixará de ser democrática.

Se era de temer que as eleições espanholas nos dissessem alguma coisa sobre estes dois perigos, o do centro-zombie e das direitas mercenárias, então só se pode concluir que falaram claro.

Artigo publicado em expresso.pt a 12 de novembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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