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Sinais de fogo

Não será fogo fátuo antes tão real quanto ele incidirá sobre a vida das pessoas. De repente, as medidas pesadas da CGD. Outra vez, a credibilidade da esquerda à prova assim como a segurança e tranquilidade dos mais velhos.

Outra vez, a zurzir sobre os mais frágeis. A tabela de preços sobre os serviços da CGD agora divulgada é, no seu conjunto, excessiva. Trata-se do segundo aumento de comissões em seis meses. Assim vai uma gestão de sucesso. Já nem questiono a necessidade de pagar os serviços, pode ser que seja preciso mas talvez houvesse espaço para encontrar um equilíbrio e essa inteligência, sim, significaria uma boa gestão. Muito para lá do aumento obsceno, o que causa indignação é que a aplicação destas novas taxas castiga os menores rendimentos e esta via é contrária a orientações do Banco de Portugal que não quereria ver os mais vulneráveis afectados. Na ausência de uma explicação convincente a nova tabela revela iniquidade, acentua as diferenças socio-económicas, protege os clientes com rendimentos mais elevados deixando transparecer um pensamento liberal, sem escrúpulos. Uma linha de acção, aliás, enfatizada pelas declarações de Paulo Macedo ao considerar que “o banco público não serve para ser barato, serve para ser inclusivo, mas serve, sobretudo, para ser sustentável”. Que diabo é que a CGD passa a incluir? Só se for “num contexto de custos financeiros mais baixos para as empresas” (palavras de Paulo Macedo) e para alguns particulares (digo eu).

Medidas em contramão. Durante os últimos 4 anos, o Bloco de Esquerda lutou pela aprovação de medidas várias que minorassem a situação económica e social dos pensionistas e reformados sobretudo daqueles com rendimentos mais baixos. O Bloco não esteve sozinho nesta luta, ainda bem, o Parlamento aprovou e o governo do PS implementou essas mesmas medidas. Relembro apenas o aumento de 10 €/mês para aqueles com pensões inferiores a 800 €, uma intervenção modesta mas que ajudava revelando um pensamento e atitude diferentes. Pela primeira vez, admitia-se que as pessoas contam, que a solidariedade é indispensável, que o Estado tem de manifestar preocupações de ordem social.

De repente, as medidas pesadas da CGD. Não há nelas a menor manifestação de consideração pelos mais vulneráveis. Pelo contrário, transpira um cariz neoliberal que só pode merecer repúdio. As taxas são muitas e pesadas. Caíssem sobre todos os clientes e seria difícil de aceitar. Mas a opção foi dividir as pessoas de acordo com os seus rendimentos fazendo incidir a parte mais pesada sobre os mais frágeis. Lá pelas bandas da CGD não são conhecidas as medidas que o Governo tomou de protecção aos que têm menos? Não houve alguma preocupação de se pautarem pela mesma lógica?

As taxas não estão desacompanhadas. Há umas semanas atrás foi a quase abolição das cadernetas, a impossibilidade de fazer operações com a caderneta (excepto a sua própria actualização). Os clientes da CGD são obrigados a duas coisas: obtenção de cartão de débito (vulgo multibanco) e dispor de computador e internet instalada. Independentemente da literacia de cada um, os nossos velhos de 70, 80, 90 anos ou mais, têm de se familiarizar com o computador (que não têm) e passarem a fazer as suas contas através da internet (que também não têm). Tudo digital porque ao balcão (quando existem agências) paga-se mais. Se não fosse tão trágico, daria um belo cartoon. Para as soluções da CGD não pesaram a velhice, a solidão, a fragilidade de cada um.

Um aumento que se esvai. Num ápice, um pensionista verá desaparecer aquele pequenino aumento de 10 € e desamparado com a falta da caderneta, concluirá aquilo que está à vista de todos: a direita, use o nome que usar, está aí, disponível para intervir em contramão com decisões mais justas e solidárias com força de lei. Estas taxas deveriam ser imediatamente suspensas, sujeitas a revisão e dadas garantias que qualquer iniquidade no tratamento das pessoas não será tolerada. Ora aí está um bom motivo para começo de legislatura!

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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