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Equador, o contra-ciclo revolucionário/anti-austeritário na América Latina

A imprensa nacional tem sido parca ou completamente ausente sobre a situação que está a viver aquele país da América Latina. Bem entendemos porquê.

Vamos tentar falar um pouco sobre isso, então.

Toda a América Latina, ou quase toda, vive de novo uma feroz ofensiva reacionária, direitista, neoliberal. As diversas oligarquias recompuseram-se das políticas algo tímidas e reformistas dos anteriores, sucessivos, governos de centro esquerda que conduziram as dinâmicas políticas no ciclo imediatamente anterior. As diversas oligarquias, que remontam do período esclavagista das Américas, raramente gostam de perder privilégios, de aceitar a mobilidade social e/ou de não serem senhores do controlo do processo político e económico de cada país.

Foram o Brasil de Lula, a Argentina dos kirchners, a Bolívia de Evo Morales, a Venezuela de Chaves os casos mais marcantes e impactantes no sentido da defesa da soberania económica de esses países e da melhoria das condições de vida dos seus povos.

A estratégia imperial do “colonizador” do norte, desta vez, por enquanto, não inclui as botas cardadas das forças armadas. O poder judicial é, desta vez, o tentáculo dos interesses estado-unidenses. A perseguição judicial a líderes ou antigos líderes, ministros, políticos e activistas desse ciclo é a nova forma de impor a nova ordem imperial e depradatória a esses países. É o poder judicial, no século XXI, o agente do imperialismo na América Latina. Perseguição/condenação a Lula, perseguição a Rafael Correia, a Ricardo Patinho, seu ministro, a Cristina Kirchner, e o que mais ainda se verá.

O caso do Equador, que agora vamos falar é um caso peculiar.

Lenin Moreno, o agora presidente, não é eleito por nenhum partido conservador, oligárquico, evangélico. Ele é proposto e eleito pelo partido, Aliança País, o partido de Rafael Correa, que tem dois mandatos presidenciais de 2007 a 2017.

Ele sai da própria direcção desse partido. No primeiro dia de tomada de posse começa imediatamente a trair o seu partido, recebendo o embaixador norte-americano, a associação de imprensa e a associação patronal, dando-lhes destaque de prioridade. Todos esses sectores tinham combatido as presidências de Rafael Correa. A receita neoliberal estava na agenda deste presidente.

Constatando o logro, grande parte da militância do partido Aliança País, tentam formar novo partido, dado que o anterior estava controlado/manipulado pelo presidente eleito. O poder judicial começa a fazer acusações ao ex-presidente e o novo partido é impedido de se legalizar por afinidades com um ex-presidente acusado. Entretanto Rafael Correia junta-se a sua mulher, belga, e a seus filhos, na Bélgica.

As fricções sociais e perseguições prosseguem. Ricardo Patinho anterior ministro da defesa acaba por pedir asilo político no México, por exemplo. A Europa não activa o mandato de captura internacional que é lançado para a Interpol, por indícios de perseguição política.

Desta vez a coisa foi mais longe na ofensiva contra o povo equatoriano.

Uma enorme batalha dos trabalhadores urbanos, camponeses e indígenas do Equador, contra os planos de ajuste do governo de Lenin Moreno e do FMI, estala em todo o país.

Há semanas as populações enfrentam-se contra a militarização, o decreto do estado de excepção e a repressão virulenta do governo da “nova direita” que quer aplicar uma reforma laboral e aumentar o preço dos combustíveis.

Os ajustes neoliberais respondem as imposições do FMI, como seria expextável, pelo empréstimo de 4.209 milhões de dólares.

Os aumentos são de até 123% nos preços dos combustíveis. Como a economia equatoriana é dolarizada, qualquer aumento dos preços atinge em cheio a população trabalhadora, especialmente os segmentos mais pauperizados.

Para a aplicação destas medidas, do pacote do FMI, o presidente decretou o estado de excepção na passada 5ª. Feira, militarizando o país e especialmente a capital, Quito, com blindados e destacamentos das forças armadas, numa exibição de brutalidade digna de países como o Egipto.

Fruto dessa repressão já há mortos milhares de feridos e centenas de presos.

A resposta popular não acalmou, pelo contrário e o presidente teve de se refugiar numa base militar e o governo de sair da capital, refugiando-se noutra cidade distante, Guayaquil.

Quito fica entregue a uma gestão militar. Os enfrentamentos têm sido muito violentos e o povo equatoriano não dá sinais de ceder, a polícia divide-se e toma posição pelos manifestantes e enfrenta-se ao exército, e há imagens de blindados já tomados e incendiados…

Perante isto cumpre-nos a nós, socialistas, estarmos solidários com as populações e o povo equatoriano nesta luta contra mais um plano austeritário do FMI, contra a repressão e o estado de excepção. A Lenin Moreno não resta outro caminho senão a demissão e a convocação de eleições presidenciais.

Pela democracia, soberania, pelas liberdades democráticas, contra a austeridade e a repressão.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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