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A greve pelo clima como defesa do direito à greve

A greve pelo clima, que em outros momentos teve uma expressão enorme, trouxe, e continua a trazer, para o espaço público o debate sobre a ação que devemos tomar desde já para combater as alterações climáticas.

Num momento em que tantas vezes, erradamente, se diz que as jovens não se interessam por política e não participam, as greves e as manifestações que se espalharam pelo país inteiro demonstraram exatamente o contrário!

Só isso já foi um passo de gigante. A política e o sistema político estão em constante mutação, mas sempre nos demonstram que é preciso dar um abanão no sistema para obter avanços. Foi assim com avanços históricos para trabalhadores ou para as mulheres; foi assim com avanços históricos para as pessoas racializadas ou para derrubar sistemas fascistas. Foi sempre com grandes abanões que conseguimos garantir direitos, proteger partes da nossa sociedade, arrancar a liberdade e a democracia das garras de quem achou por demasiado tempo que bom mesmo era vivermos na idade das trevas.

E que grande abanão têm sido as greves pelo clima. Se ainda restavam dúvidas sobre a emergência climática, essas dúvidas hoje só podem ser defendidas por personagens como Trump ou Bolsonaro. Não deixa de ser fantástico ver líderes mundiais ou os donos disto tudo do grande mundo empresarial terem receio do movimento de jovens pelo clima!

E isto traz um novo desafio. Quando, hoje, todos os partidos nos dizem que o combate às alterações climáticas são a preocupação número um é importante destrinçar o que é que realmente se defende e se, de facto, estamos perante meras proclamações de intenções ou não.

A direita (PSD e CDS) fala de combate às alterações climáticas, mas na proposta, e na prática, nada muda.

Rui Rio acha que trocar de caldeira salva o planeta, pois muito bem, isso é lá com ele e define bem como PSD olha para estas questões. Nada mais tem a acrescentar. Assunção Cristas acha o tema muito relevante, até se considera a campeã do combate às alterações climáticas no tempo em que era ministra. Isto é estranhíssimo, vindo de alguém que liberalizou a floresta e abriu terreno para indústrias que estão mais ou menos rapidamente a esgotar o solo com monoculturas de eucalipto. Nas propostas para o futuro, CDS mantém tudo na mesma.

E porque é que este polo mantém tudo na mesma? Porque na essência, não preconizam uma mudança de paradigma, não pensam na possibilidade, sequer, de mudar radicalmente o sistema económico. E sabemos que não o poderiam fazer, porque estão, na essência, comprometidos com esse mesmo sistema económico.

Qual é a solução que apresentam? Um capitalismo pintado de verde! “Não há capitalismo verde” tem sido um slogan destas greves pelo clima. Mas mais do que um slogan, é um facto. Um sistema económico que se baseia na exploração (de recursos e de força de trabalho), que se baseia no lucro a todo o custo, que se baseia na criação de desigualdades para se manter é um sistema que nunca poderá acomodar, verdadeiramente, aspirações ambientalistas que tenham consequências práticas, efetivas no combate às alterações climáticas.

Mas do PS também percebemos que fica pelo caminho, porque também não pretende alterar fundamentalmente o sistema. As propostas e as medidas vão ficando muito aquém do que é exequível, há uma lentidão propositada no avançar das coisas, ficando em segundo plano o facto de que algumas medidas já deviam ter sido implementadas ontem.

No pior dos cenários, tentam equilibrar o discurso contra as alterações climáticas com a aprovação de furos em Aljezur. São difíceis exercícios de malabarismo!

Por isso o Bloco de Esquerda tem propostas no programa muito concretas (algumas muito antigas) sobre redução de utilização e produção de plástico, sobre o fim da produção de energia com combustíveis fósseis, sobre a implementação de um plano ferroviário nacional que permita combater desigualdades regionais e promover modos sustentáveis de mobilidade.

Por isso temos propostas tão concretas como a aprovação da Lei do Clima para que se possam efetivar as medidas de corte drástico na produção de energia com combustíveis fósseis, para que exista, desde já, o enquadramento legal para fazer tudo o que aparentemente todos dizem querer fazer, mas só alguns se propõe a implementar.

Há uma outra razão pela qual a greve pelo clima teve um papel fundamental: a defesa do direito à greve. O direito à greve foi ganho através de um desses abanões que se deram no sistema. O direito à greve não é nem foi imutável ao longo do tempo e tem, hoje, uma importância enorme para a defesa de quem trabalha, mas não só.

A importância de olharmos para a greve como sendo um instrumento de luta válido para todas as lutas começou com mais força com a greve feminista, mantém-se com a greve pelo clima e com certeza não ficará por estes temas.

Desde muito nova que ouvi que o direito à greve se defende exercendo-o. Isto é cada vez mais válido. Se essa greve é pelo clima porque percebemos que ela é tão essencial a todos os setores de economia e tão vital para todas as áreas das nossas vidas, então é também um direito que deve ser defendido e queria também saudar o facto de mais sindicatos se estarem a juntar a esta iniciativa!

Em Lisboa, tivemos já uma série de ações e reuniões ligadas a matérias do trabalho. Numa fábrica de gelados foi-nos impedido o acesso às instalações (apesar do pedido com antecedência) e o direito de associação e reunião dos trabalhadores tem sido posto em causa sucessivamente pela administração.

À hora de almoço, estivemos com precários do LNEC que ainda aguardam a resolução dos seus processos de integração.

Da parte da tarde, com a Comissão de Trabalhadores da Groundforce (setor aeroportuário) ouvimos das consequências incrivelmente nefastas do trabalho noturno e por turno, além do impacto de um setor de atividade altamente poluente e que apenas tem em vista o crescimento sem limites, alicerçado no turismo selvagem, com consequências para as cidades, para a habitação, transportes, salários, horários de trabalho, poluição e doenças.

Em todos estes locais, a defesa dos direitos do trabalho faz-se pela defesa de direitos sindicais e de associação entre trabalhadores. A greve é um dos instrumentos mais poderosos de quem trabalha, por isso é tão importante que seja um instrumento poderoso na luta contra um sistema que tanto oprime a trabalhadora precária como explora os recursos naturais até à exaustão.

Por isso, para responder a todas as lutas, é preciso fazer acontecer, no dia 6 de outubro, um crescendo de votos à esquerda, no Bloco de Esquerda, que dê mais força a estas mudanças.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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