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Viva Greta e os jovens que não querem ser só o futuro

Mais uma greve climática, mais uma lição que “os putos” (para usar um termo dos e das próprias grevistas, em alguns dos seus cartazes) dão ao mundo. Pela minha parte, afirmo sem hesitações: estou com a Greta e com quem hoje ocupa as ruas por todo o mundo.

E sinto necessidade de insistir nisto porque, nos últimos dias, a campanha de ódio contra Greta Thunberg e a greve climática se multiplicou. Não faltou quem, no espaço público, tentasse relativizar ou descredibilizar o protesto, a agenda deste movimento que quer ir à raiz do problema (o nosso modo de produção e de consumo) ou a legitimidade e a importância da participação política das crianças e dos jovens.

A extrema-direita e os negacionistas das alterações climáticas empenham-se na disseminação de notícias falsas e de teorias da conspiração, forjando mentiras segundo as quais a jovem ativista sueca seria uma marioneta de interesses sombrios, que vão dos “judeus” (os novos fascistas não primam pela originalidade, e lá aparece inexorável a referência a George Soros...), uma vítima dos pais aproveitadores ou de uma suposta “agente” ou “supervisora” que a manipularia.

Por cá, além da replicação desta campanha internacional, os argumentos contra Greta vêm também de outros setores. Veja-se os textos de Manuel Carvalho ou de José Miguel Tavares, para dar apenas dois exemplos, e o modo como declamam, em versões diferentes, o mesmíssimo pavor de sempre das elites, a mesma hostilidade conservadora a quem luta pela transformação social. Quem quer mudar de paradigma, quem acha que o capitalismo deve ser superado (“o capitalismo não é verde”), quem não se contenta com a política como gestão do que existe (“muda o sistema, não o clima”), quem faz da indignação um impulso utópico e acha que o futuro não tem de ser apenas uma variação do presente, é apresentado invariavelmente como um totalitário em potência, uma aprendiz de Lenine, uma “primitivista” cuja linguagem “de ruptura” teria apenas a utilidade, na melhor das hipóteses, de estimular os “moderados” de sempre a encontrar “novos equilíbrios” dentro do mesmo sistema. Velha conversa.

Sem força suficiente para descredibilizar os alertas da ciência (“nem acredito que estou a manifestar-me por factos”, dizia um dos cartazes hoje), confrontados com um movimento que tem sido capaz de resistir à cooptação pelo mercado (“muda os teus hábitos, diz não ao greenwashing”, rogava outro), há quem procure atacar a própria Greta: porque seria uma miúda raivosa, impertinente, imatura, nova de mais, ingénua, manipulável, porque veria o mundo “a preto e branco”. Alguma esquerda retrógrada converge aliás com estes conservadores na sanha contra a adolescente nórdica, variando as acusações: Greta seria afinal apenas um produto da conspiração das multinacionais, não teria autoridade moral para falar porque vem de um país rico, seria uma voz da pequena-burguesia branca, estaria a apropriar-se ilegitimamente – e com o apoio de “forças obscuras” – do repertório da greve, que seria um exclusivo do movimento operário (como se, ao longo de toda a história, os estudantes não tivessem feito greves...).

“Faltei ao teste de História para fazer História”, lia-se numa pancarta na Praça da República, no Porto. Querem maior lição de responsabilidade que esta? Por que continuamos a ter tanta dificuldade em sermos confrontados com o caráter destrutivo do capitalismo, da economia do carbono e do paradigma extractivista? Com a necessidade de repensarmos o modo de produção em que vivemos e o conforto conformista da parte rica do mundo que não quer abdicar das suas “doces delícias”? Com a irresponsabilidade em que estamos mergulhados, que agrava a pobreza e as vítimas climáticas?

Aproveitemos então a pujança de um movimento que cresce em número, em capacidade de marcar o debate público e nas solidariedades que convoca. Aprendamos com um movimento que teve já o efeito de obrigar os partidos a vir a jogo e de instigar até mudanças no sindicalismo - como aconteceu hoje com o pré-aviso de greve da Fenprof e de outros sindicatos, um reconhecimento da ampliação do próprio conceito de greve, que assim se expande no entendimento do que é produção e do que é trabalho (debate que a greve feminista internacional já tinha colocado em cima da mesa).

Não nos enganemos: as crianças e os jovens não são apenas o futuro. São o presente e estão a reivindicar, ao afirmar-se presente, a sua condição de cidadãs agora e de intervenientes políticas. Hoje, os “putos” voltaram a desafiar esse paternalismo larvar que não esconde o incómodo de ser uma criança – aliás, milhões de crianças – a destapar o absurdo do mundo em que vivemos. Ainda bem que o fizeram. É melhor habituarmo-nos.

Artigo publicado em expresso.pt a 27 de setembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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