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A semana da greve climática (e o misógino repetitivo)

Na próxima sexta-feira muitos jovens em todo o mundo desencadearão a segunda greve climática para se baterem pelas medidas de emergência que possam enfrentar o desastre.

Já começaram a manifestar-se na semana passada, foram dois milhões. Serão mais ainda esta semana. Com três sinais essenciais: primeiro, é uma ação mundial, como deve ser; segundo, os jovens reinventam a greve como uma forma de ação social aberta a toda a população; terceiro, pressionam os responsáveis governamentais, incluindo os que recusam a existência de alterações climáticas, a responder perante os seus povos. Esta exigência democrática é vital para a nossa vida e não é uma disputa pelo futuro, é uma luta pelo presente.

Assim, a emergência climática representa uma consciência, reforça o consenso científico e mobiliza para a ação concreta, criando uma experiência de protagonismo e de iniciativa que faz a autoeducação destas gerações de grevistas. É o dado maior da nossa democracia. À escala internacional, este é o antídoto mais poderoso aos populismos, aos autoritarismos e ao extrativismo destrutivo. Não há outro que se lhe compare. Se há hoje quem questione os modelos produtivos destruidores, são estes jovens quem ocupa a primeira linha. A nível nacional, devo ainda destacar uma alegria: esta é a primeira geração de jovens que desde há quase trinta anos escapa à cultura da praxe e se dedica vibrantemente ao presente. Que tenham o maior sucesso, ensinar-nos-ão um caminho novo.

O misógino repetitivo

Tenho grande estima pela escrita de Henrique Raposo, por uma razão afetiva: assim como o canário ia à frente dos mineiros para reconhecer o risco, há sinais culturais que antecipadamente comunicam o que pensa a direita mais profunda. Raposo é brilhante nesse capítulo. Há um par de anos, dizia que a Catarina Martins era um “truque”. Voltou ao assunto para lhe chamar “geringonça esganiçada”. A semana passada, aqui neste jornal, apimentou o assunto, ela “berra num tom de soberba insuportável, aquele timbre altivo e até esganiçado”. O “esganiçado” é o mote, afinal é uma mulher.

Claro que há nisto uma tradição, inaugurada por essa grande figura da nossa vida coletiva, que dá por Pedro Arroja, que dizia que “aquelas esganiçadas, sempre contra alguém ou contra alguma coisa”, são detestáveis, como seria de esperar. Explicava ele: “Aqui entre nós que ninguém nos ouve, eu não queria nenhuma daquelas mulheres - já tenho pensado - eu não queria nenhuma daquelas mulheres, nem dada. Nem dada!”. Afinal, algumas tradições à direita ainda são o que eram.

Artigo publicado em expresso.pt a 24 de setembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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