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O mundo imperativo ou a importância das mudanças necessárias

Clamar pela promoção da saúde ou pelo aumento da literacia é inglório quando a organização dos cuidados de saúde não consegue dar uma resposta integrada de apoio às pessoas com diabetes.

É imperativo que o próximo Governo olhe para as doenças crónicas, das quais a diabetes é o exemplo mais expressivo, e perceba que os cuidados de uma pessoa com doença para a vida não podem ser equiparados aos da doença aguda.

Clamar pela promoção da saúde ou pelo aumento da literacia é inglório quando a organização dos cuidados de saúde não consegue dar uma resposta integrada de apoio às pessoas com diabetes.

Portugal é o país da Europa com a mais alta prevalência de diabetes: um milhão de pessoas. Destes, cerca de metade desconhece ter a doença, que progride silenciosa. A estes números juntam-se dois milhões de pessoas com um risco elevado de desenvolver diabetes (a chamada fase de “pré-diabetes”). Se adicionarmos três milhões de familiares, somamos um total de seis milhões de portugueses que são atingidos diariamente pela diabetes e que consomem mais de 10% dos custos em saúde, sem contar todos os outros custos pessoais envolvidos.

No dia 23 de setembro aconteceu, em Nova Iorque, a 3.ª Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre Cobertura Universal de Saúde. A Organização das Nações Unidas defende a promoção do acesso a cuidados de qualidade, um maior e melhor investimento na saúde e o envolvimento de toda a sociedade, incluindo as associações de doentes.

Quando discutimos o acesso à saúde, temos de garantir a integração de cuidados e reconhecer que a doença crónica tem nas pessoas que dela sofrem os seus principais cuidadores. Será nelas que temos que investir os nossos esforços.

A doença crónica exige um tratamento diferenciado e é preciso criar condições que lhes assegurem um acompanhamento multidisciplinar e integrado, de maior proximidade, centrado na pessoa e não na doença em si – a velha Medicina Social ou a Medicina Ecológica. A evidência de que os determinantes sociais da saúde são o factor mais importante da saúde individual tem vindo a lume pelo seu enorme impacto nos resultados de saúde e ainda mais reforça esta visão.

É assim evidente a necessidade de uma reforma estrutural do Serviço Nacional de Saúde, com mudanças ao nível do modelo tradicional da assistência em saúde (centrado nos cuidados curativos), que terá de ser complementado por abordagens que motivem as pessoas com doença crónica, as apoiem em proximidade através de uma rede de prestadores sociais e o envolvimento da sua família e comunidade.

Neste campo, a diabetes tem sido pioneira através da ação promovida, há mais de 93 anos, pela Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP). A transformação na área das doenças crónicas é feita com acompanhamento e educação e a função principal da APDP tem sido, e sempre será, a de capacitar as pessoas com diabetes, dar-lhes formação para serem elas próprias os verdadeiros protagonistas das suas histórias de saúde, apoiando-as nesse processo.

Artigo publicado no jornal “Público” em 26 de setembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Médico, presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), dirigente do Bloco de Esquerda
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