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A ONU ficou a conhecer o Bolsonaro como ele é

Nenhuma conciliação. O discurso de Bolsonaro na ONU passou por quase todos os temas gratos à extrema-direita neofascista. As afirmações sobre a Amazónia são falsas. E não faltou o elogio à ditadura militar brasileira (1964-1984). Discurso de fanático para deleitar fanáticos.

A imprensa brasileira alimentou a ilusão de que o discurso de Bolsonaro marcaria uma inflexão de tom. Que seria conciliador. Quanto mais não fosse, para não afugentar os 230 fundos de investimento signatários de uma declaração conjunta manifestando preocupação com o impacto que a desflorestação da Amazónia pode ter sobre as empresas que os fundos representam, “aumentando potencialmente os riscos de reputação, operacionais e regulatórios”. Esses fundos, juntos, administram 16 biliões de dólares.

Já se liam piadas de que só faltaria ao presidente do Brasil apresentar-se na tribuna envergando um cocar índio, para convencer a ONU das suas boas intenções.

Mas não foi nada disso que aconteceu.

Também não aconteceu o vexame do discurso de Bolsonaro no Fórum de Davos, logo após a eleição, muito curto e que não passava de uma má peça publicitária do turismo brasileiro. Não, desta vez Bolsonaro leu um discurso pensado, elaborado, e conseguiu até não se confundir no teleponto.

Mas o conteúdo envergonha os brasileiros.

O mundo pôde ver e ouvir quem é Bolsonaro, (quase) sem máscara. Foi um discurso de guerra contra o socialismo e o globalismo, um discurso virado para a extrema-direita que Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump, quer organizar num movimento internacional (passe o paradoxo de uma internacional neofascista para combater o “globalismo” e desenvolver o patriotismo). O Estadão e a Veja informam que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, preparou o discurso com Bannon. E há ali também a mão do guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

O discurso teve três partes. A primeira consistiu num ataque a Cuba, à Venezuela e a tudo o que considera “socialismo”, sem se esquecer de reivindicar apologeticamente a ditadura militar brasileira.

A segunda parte abordou a Amazónia, com destaque para um ataque frontal à França, embora sem mencionar o nome, mas sendo totalmente explícito. Afirmou candidamente que o Brasil é o país que mais preserva a sua floresta do mundo! Acusou países europeus que reagiram às queimadas de serem “colonialistas” e arranjou à última hora uma indígena bolsonarista do Xingu, que já foi repudiada pelos povos indígenas da região, para dizer (sem corar) que o Brasil defende a Amazónia e os índios.

Finalmente, a terceira parte foi um ataque a todos os governos anteriores, sem distinção, dizendo que o Brasil esteve muito próximo do “socialismo”, nas mãos de corruptos, e que agora está a viver o país das maravilhas, um país que cresce e onde a família é respeitada e Deus está acima de todos, com a ajuda de Trump e do governo de Israel.

Sem dúvida um dos discursos mais reacionários que aquele recinto ouviu desde a primeira assembleia geral.

Um discurso para desafiar a maioria dos países da ONU, um discurso para reivindicar a soberania do Brasil sobre a Amazónia (que ninguém pôs em causa), um discurso de guerra ao mundo, onde os “bons” são apenas Donald Trump e o governo de Israel. Nenhuma proposta, nenhuma preocupação com os destinos do planeta. Zero. Vazio. Um discurso de campanha virado para a extrema-direita mundial que deve ter ficado eufórica.

Nem vale a pena argumentar sobre as mentiras factuais incluídas no discurso. O portal G1 fez este fact-check, que ainda está bastante incompleto. Mas são mentiras transformadas verdade na bolha dos seguidores fanáticos de Bolsonaro. Que, segundo garante o Instituto DataFolha, são apenas 12% dos brasileiros. Oxalá seja verdade.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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