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A hora mais sombria

Em agosto de 1999 eu tinha 15 anos acabados de fazer. Estava à porta do secundário e em processo de politização. Desse ano, tenho muitas memórias vivas. 1999 foi para mim, como para milhões de portugueses, o ano em que ocupámos as ruas por Timor.

No Porto, a Praça da Liberdade tornou-se um lugar permanente de mobilização e vigília. Meses antes, o massacre de Liquiçá – em que cerca de dois mil timorenses refugiados numa igreja foram atacados pelas milícias indonésias e muitas dezenas assassinados a tiro ou à catanada – voltara a mostrar ao mundo a violência sanguinolenta da ocupação. Os meses que precederam o referendo, que viria a acontecer no final de agosto, eram de expectativa e de medo. Mesmo ao longe.

As imagens televisivas do dia do referendo são impressionantes: arrepia a emoção de gente que, vinda a pé de longe, muitos descendo a montanha, enfrentavam as ameaças e o perigo anunciado para vir dizer, votando, que era a independência o futuro. Mas as memórias que tenho são também de incredulidade e revolta com o que se seguiu ao referendo. Os timorenses de novo em fuga para as montanhas em busca de refúgio ou levados para Timor Ocidental pelas milícias. Eurico Guterres e os seus milicianos de t-shirt preta e catana em punho a percorrer as ruas matando e queimando tudo. O terror instalado, num processo em que foi atribuída à Indonésia a responsabilidade pela segurança do território. As imagens das pessoas que se atropelavam para entrarem nas instalações da missão da ONU, quando o massacre em curso parecia incontrolável.

Os testemunhos de pessoas que estiveram lá, como os de Ana Gomes, Francisco Alegre Duarte ou Luciano Alvarez, dão conta, na primeira pessoa, do que foi viver esse acontecimento de perto. Pela minha parte, lembro-me de como foi Timor visto do Porto: um desses raros momentos em que o quotidiano se interrompe em nome do que é justo. A independência de Timor é obra das milhares de pessoas que, ao longo dos 24 anos de ocupação, foram a resistência política e fizeram a luta armada. Das que mantiveram os espaços de encontro, nomeadamente religiosos, que alimentaram o princípio-esperança daquela comunidade. Das que sobreviveram sabendo que resistir era já vencer. Das que, sabendo que o pior estaria para vir, enfrentaram a intimidação, a morte, a violência e fizeram o que a sua consciência lhes ditava.

Timor foi para nós uma lição gigante de coragem. Tanto quanto sei, durante muitos anos, não faltou quem dissesse, em embaixadas e salões, que Timor era uma “causa perdida”, quem aceitasse mais ou menos passivamente que a Fretilin e Xanana constassem de listas internacionais de “organizações terroristas”, quem sucumbisse perante a evidência de que, rodeado por gigantes, aquele pequeno povo não conseguiria jamais ser mais forte que os poderosíssimos interesses económicos em jogo. Com Timor, contudo e contra todas as probabilidades, o impossível aconteceu. E aconteceu nessa combinação entre a persistência dos timorenses, a insistência diplomática e a solidariedade internacional, para a qual foram decisivas as imagens recolhidas por quem não abandonou o território para garantir que o mundo sabia o que estava a acontecer. O levantamento cívico que houve também em Portugal, nesse ano de 1999, foi revelador de como o pequeno país que somos pode mostrar aos grandes do Planeta o que é a grandeza que interessa.

Por esses dias em que o terror acontecia do outro lado do mundo, era distribuído no Porto um comunicado, escrito pelo Miguel Portas, que tinha como título uma frase, sugerida pelo Renato, que não mais me saiu da cabeça. Era o último verso de um poema da autoria de Théodor Six, operário da tapeçaria e revolucionário das barricadas de 1848, que fora afixado pelas ruas de Paris, em forma de apelo, na vésperas da Comuna começar. Dizia assim: “a hora mais sombria é a que precede a aurora”.

Com Timor, aprendemos que o longe é aqui, que nada é impossível, que não estamos condenados ao terror. Hoje, passados 20 anos, penso em Timor. Mas não só. Penso na Palestina e nos presos políticos das nações sem Estado do nosso continente. Penso nos refugiados da Europa e nos indígenas da Amazónia. O longe é aqui. Oxalá se possa, contra a violência dos fortes e o cinismo dos desistentes, voltar a dar razão àquele verso e, em tempos sombrios, precipitar alvoradas.

Artigo publicado em expresso.pt a 30 de agosto de 2019

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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