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Em busca da aliança perdida

O último Conselho Europeu teve bastantes particularidades. Além de se ter arrastado por mais dias do que estava inicialmente previsto, os resultados são desastrosos.

Por um lado, as conclusões políticas do Conselho não acrescentam nada de novo aos anteriores. Ou seja, não há respostas concretas a temas tão relevantes como migrantes, refugiados ou alterações climáticas. Nada se decide, mantendo as políticas militaristas no Mediterrâneo e o passo de caracol na resposta à emergência climática.

Por outro lado, os nomes apontados para os altos cargos da União Europeia representam o pior que existe na política europeia. Dizermos que eles “não têm currículo, têm cadastro” não é para ser interpretado metaforicamente, dado que vários foram já condenados por condutas questionáveis e corrupção. É como ver um acidente a acontecer em câmara lenta e não conseguir pará-lo.

Mas, há um ponto prévio que importa relevar. Lembramo-nos, com certeza, do discurso do primeiro-ministro António Costa sobre a necessidade de uma “frente progressista”, de um acordo para uma “aliança progressista” entre as forças europeístas.

Vem à memória um conjunto de livros de Marcel Proust, “Em busca do tempo perdido”. Para o caso, e após o resultado das negociações, seria mais António Costa “em busca da aliança progressista perdida”. Sofrendo de alguma cegueira pelas luzes da ribalta, o que o primeiro-ministro não conseguiu (e não quis) ver foi que essa “aliança progressista” nunca existiu.

Reflexo disso mesmo são as escolhas finais para altos cargos da União. No final, ganhou o grupo de Visegrado, liderado por Órban, com as suas posições contra o Estado de Direito e as liberdades fundamentais. Cantar vitória com este resultado só mesmo para quem está disponível para todo o contorcionismo.

Para presidente da Comissão Europeia, foi indicada Ursula Von der Leyen, braço direito de Merkel e da sua política. É a mesma pessoa que propôs a criação de um exército europeu e que enfrentou um inquérito parlamentar por irregularidades na atribuição de contratos públicos.

Para líder do Banco Central Europeu, escolheram nada mais nada menos que Christine Lagarde, tão bem conhecida dos portugueses pelo seu tempo de líder do FMI e uma das caras da política da Troika e de forte austeridade. Além disso, em 2016 foi considerada culpada por desvios de fundos públicos e negligência.

O alto representante da União para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança saiu na rifa a Josep Borrell. Para um cargo eminentemente diplomático, a escolha não podia ter sido mais ao lado. Também envolvido em casos de corrupção e conflito de interesses, em 2018 acabou multado pela Comissão Nacional do Mercado de Valores por ter utilizado informação privilegiada para proveitos próprios. Bem conhecido por alimentar vários conflitos e por várias declarações polémicas (como quando disse que a colonização americana não tinha sido nada de mais, mataram apenas um ou dois índios).

Para presidente do Conselho Europeu, decidiram por Charles Michel, que governou até 2018 com a extrema-direita. Ora, quando se entrega a coordenação entre os vários governos europeus a uma pessoa que escolheu governar com a extrema direita, está tudo dito sobre o atual rumo da União Europeia.

Cadastro, nalguns casos literal, noutros político. No final de contas, rapidamente a “aliança progressista” acabou nas mãos dos conservadores e da extrema direita, com Órban à cabeça. A democracia fica arredada para canto com estes processos, os jogos de poder falam mais alto e vale tudo para manter um status quo que esquece as pessoas, esquece os direitos, esquece a solidariedade.

No final, para o Ministro dos Negócios Estrangeiros Santos Silva, o balanço é positivo para Portugal e considera que as pessoas escolhidas são “moderadas”. A moderada Lagarde que lidera as políticas de austeridade do FMI? A moderada Ursula que quer militarizar a Europa? O moderado Charles Michel que governou de mão dada com a extrema-direita? O moderado Borrell que pretendeu reescrever a história dos colonialismos?

Tudo serve ao governo do Partido Socialista para justificar o aval que deu a este conjunto de pessoas, mas fica claro que da União Europeia os ventos continuam agrestes e o desvio para a direita e extrema-direita prossegue. Para a história não ficará sequer o teatro com que fomos brindados nas últimas semanas.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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