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A política quente

Tem a política que ser fria? Tem nela que prevalecer a razão instrumental?

Miguel Duarte é um símbolo do melhor de nós. A troco de coisa nenhuma entregou-se à tarefa de resgatar vidas de gente que as arrisca para chegar ao El Dorado do lado de cá. Viu morrer muitos, salvou outros tantos. E salvar foi um ato político de alta intensidade porque significou desafiar, na prática, quer a crueldade bruta da extrema direita que invoca o combate ao tráfico de seres humanos para deixar seres humanos morrer em larga escala no Mediterrâneo, quer o cinismo do centro político que brada contra a extrema direita ao mesmo tempo que se refugia em juridicismos e diplomacismos para legitimar um resultado exatamente igual ao pretendido pela extrema direita: blindar as fronteiras aos pobres e abri-las aos ricos.

A perseguição política a Miguel Duarte pelos Salvinis da vida é a perseguição a quem ousa pôr em questão essa convergência prática entre a brutalidade da extrema direita e o cinismo do centro político. Miguel Duarte fez-lhes frente porque mandou a realpolitik às malvas e inverteu as regras: em vez de fazer contas prudentes aos grandes números, lançou-se com corajosa imprudência a dar resposta a cada um/a que lhe estendeu a mão. Crime, diz Salvini. Direitos humanos, digo eu.

Sempre que a brutalidade das políticas canónicas fica à mostra, os seus adeptos vêm dizer que os bons sentimentos ou são pieguices ou são perigos. Livrem-nos da política dos sentimentos – diz-nos agora um comentador de direita, e nisto sintetiza bem essa cultura fria. Curiosamente, diz logo a seguir que “a Europa (…) não precisa de um afluxo descontrolado e caótico de pessoas oriundas de outros continentes”. E, com isso, não faz mais do que recorrer à estratégia da política do medo, um dos sentimentos mais primários que nos habita. Aí está: a política é sempre fria e é sempre quente, é sempre racionalidade e é sempre sentimento. O que diferencia as políticas concretas é o sentimento que se convoca e em favor ou contra quê ou quem. A racionalidade, essa, é um método mas não um fim.

No Mediterrâneo, Miguel Duarte mostrou isso mesmo. Mostrou que a política fria dos muros físicos ou legais pode ser derrotada pela política quente da atenção ao sofredor, que nada mais tem senão a sua vida nua e a sua determinação sem fim. É esse o crime de Miguel Duarte.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 22 de junho de 2019

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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