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Greta Thunberg

A fraqueza que encontrou no Parlamento para juntar vozes e acções no combate às alterações climáticas contrastam com a força que os jovens trazem para as ruas na sua greve climática. Greta não está sozinha.

A Antonia estava em Estrasburgo e aproveitou para vir ao Parlamento assistir ao discurso da Greta Thunberg, que para ela é uma heroína. A menina de sete ou oito anos emocionou-se quando a Greta se emocionou e não descolou os olhos enquanto ela falava. Quando, no final do discurso, se passou à ronda dos grupos parlamentares, a Antonia perguntou se podia sair. Disse que tinha entendido tudo o que a Greta tinha dito, mas que lhe custava estar ali porque não percebia nada do que diziam as pessoas que estavam agora a falar. Poucos minutos antes da Antonia ter pedido para sair, eu tinha comentado com a minha colega Jude, com quem a Antonia estava, que me envergonhava a forma como os grupos parlamentares estavam a dirigir-se a Greta.

A jovem sueca de 16 anos fez um discurso poderoso, emotivo, fundado e carregado de urgência. Começou com as palavras: “O meu nome é Greta Thunberg, tenho 16 anos, venho da Suécia, e quero que vocês entrem em pânico. Quero que ajam como se esta casa estivesse a arder (...). Um grande número de políticos já me disse que o pânico nunca conduz a um bom resultado e eu concordo. Entrar em pânico, a não ser que seja necessário, é uma ideia terrível. Mas quando a tua casa está a arder e queres impedir a tua casa de arder completamente, isso requer algum nível de pânico”. O resto do discurso foi um apelo fundamentado e um pedido de responsabilização, sem desculpas, no combate às alterações climáticas. As primeiras intervenções dos meus colegas insistiram nas desculpas. A um discurso sobre a vida responderam com a burocracia e as “dificuldades” de contornar as decisões do Conselho ou as insondáveis versões sobre actos delegados e quejandos. A um discurso sobre acção responderam com a pesadíssima máquina e com “o tanto que já fizemos na União Europeia”. A Antonia teve razão em sair. A densidade do discurso de Greta foi, na maioria das reacções, reduzida a um menu de procedimentos mais ou menos obscuros e contra os quais supostamente é difícil, senão impossível, lutar.

Uma activista apaixonada e informada não se deixa abater por um discurso conformista e vazio de esperança num futuro melhor. Estou certa que terá saído do Parlamento mais segura das suas convicções e da dimensão do combate que temos pela frente. O que algumas das intervenções produziram foi a triste confirmação da ausência de vontade política em avançar com medidas efectivas e consequentes. A fraqueza que encontrou no Parlamento para juntar vozes e acções no combate às alterações climáticas contrastam com a força que os jovens trazem para as ruas na sua greve climática. Greta não está sozinha. Somos muitos e muitas e seremos ainda mais.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 20 de abril de 2019

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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