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Alargamento do Porto de Leixões

O projecto de alargamento do porto de Leixões, sob o pretexto de permitir a entrada de navios porta contentores de grande porte, necessita de um estudo económico, ambiental e político mais aprofundado.

Em Matosinhos, um serviço público de grande importância para a economia local e nacional é o porto de Leixões, porta principal de saída das mercadorias produzidas na região Norte, de entrada de matérias-primas que a abastecem e de outros bens.

A concessão da exploração do porto de Leixões, por não se sabe quantos anos, à iniciativa privada é um erro a juntar a tantos outros, que os sucessivos governos têm vindo a cometer, com a privatização da gestão de estruturas que alienam o controlo do Estado sobre sectores estratégicos da economia.

Convinha ter em atenção que são sectores muito lucrativos e sendo assim não se entende por que não trata o Estado da sua gestão, nomeando para isso gestores com provas dadas e capacidade assegurada.

O projecto da APDL para alargamento do porto de Leixões, sob o pretexto de permitir a entrada de navios porta contentores de grande porte, com cerca de 300 metros de comprimento necessita de um estudo económico, ambiental e político mais aprofundado.

Para que este alargamento faça sentido é necessário que sejam criadas zonas para armazenamento de contentores e vias férreas que promovam a sua distribuição, sem o que se multiplicarão os camiões em circulação nas estradas com as consequências que todos sabemos.

Tudo isto implica um financiamento de muitas dezenas de milhões de euros num curto espaço de tempo. Ora, não parece absolutamente líquido que o crescimento económico previsto para o futuro próximo justifique um tal investimento, atendendo a que não estão criadas as condições para optimizar a sua utilização.

Além do mais as afirmações de que são necessários navios de maior calado para viabilizar o porto de Leixões tem merecido alguma discussão, atendendo a que estamos a viver alterações climáticas aceleradas e que, até já se fala, em novos paradigmas de transportes marítimos, implicando a substituição de navios locomovidos a nafta por outros de dimensão menor e utilizando energias menos poluentes, que podem alterar significativamente as necessidades portuárias. Exige-se por isso uma avaliação séria das rotas utilizadas e das reais necessidades de transporte que devem ser tidas em conta, para não estarmos a multiplicar meios desnecessários e a fazer investimentos que pouco adiantam.

A tão falada questão da descarbonização da economia deve merecer por parte de todas as autoridades, um tratamento menos propagandístico, mais planificado, calendarizado e concreto.

O projecto apresentado pela APDL que se propõe tratar o prolongamento do quebra-mar, o aprofundamento por dragagem do canal de aproximação, da bacia de rotação e a eventual construção de um terminal de contentores e da sua movimentação, apenas contempla de forma superficial, os dois primeiros numa inversão de prioridades. Não se manifesta quanto à necessidade de vias férreas duplas que estabeleçam a articulação de mercadorias com os respectivos destinos, de forma mais sustentável e menos poluente.

A localização do terrapleno para armazenamento de contentores é uma questão pouco clara e poderá prejudicar a indústria da pesca ao impedir a sua continuação e o necessário desenvolvimento. A promessa de construção de uma fábrica de gelo, sem ser acompanhada do investimento em mais embarcações e da melhoria das condições de vida dos pescadores, parece destinar-se a acolher o pescado transportado de Espanha, como já hoje acontece.

Matosinhos não pode perder de vez a indústria das pescas e as que lhe estão associadas em troca de uma indústria de transportes marítimos, concessionada a entidades estrangeiras por períodos tão alongados, que a transformam em alienação total.

Algumas das razões aduzidas para apoiar este alargamento dizem respeito à criação de postos de trabalho. As centenas de postos de trabalho de que se fala serão apenas no período da construção. Os operadores privados do porto procurarão manter a escandalosa exploração a que os estivadores são sujeitos hoje, de que a APDL sempre sacode a responsabilidade.

Será que esta súbita necessidade de alargamento do porto de Leixões tem alguma coisa a ver com o interesse de servir de corredor de entrada ao gás liquefeito, que os Estados Unidos pretendem fazer entrar na Europa? É que nesse caso está em causa o crescendo da ameaça de perigosidade na zona, e disto ainda ninguém ousou falar abertamente.

Ninguém se propõe impedir o desenvolvimento do porto de Leixões, de que se reconhece a importância, mas há outros interesses que merecem, igualmente, ser salvaguardados.

O turismo, as actividades ligadas à fruição das praias, a indústria hoteleira, nomeadamente a que tem a ver com a gastronomia, correm sérios riscos com o prolongamento de 300 metros de quebra-mar que irá impedir a onda de Matosinhos, que tantos praticantes de surf, body-board e outros atraem à praia.

As alterações urbanísticas verificadas em Matosinhos nos últimos anos criaram espectativas aos seus habitantes que não podem ser completamente goradas. Queremos uma cidade dotada de um porto marítimo e não um porto com uma cidade à sua volta.

Cabe às autoridades autárquicas defender em equilíbrio os interesses dos habitantes de Matosinhos, junto do governo central e da APDL, obrigando a que sejam estudadas alternativas menos intrusivas e prejudiciais para quem optou por habitar ou desenvolver a sua actividade em torno da praia.

Que o alargamento do porto não seja o equivalente ao famigerado edifício transparente, um elefante branco, construído sem ter uma finalidade clara, com a conivência, não se sabe de quem, já que ninguém se levanta a defendê-lo, onde se esbanjaram milhões e do qual hoje muitos vaticinam como destino próximo a demolição.

Cabeça fria, portanto, para se chegar a bom porto.

Sobre o/a autor(a)

Reformado. Ativista do Bloco de Esquerda em Matosinhos. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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