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Não termos um refúgio

Perante a maior catástrofe ocorrida naquele país, a resposta internacional está a acontecer, mas a ONU, três semanas depois, afirma que a ajuda financeira às vítimas do IDAE é apenas de 11% das necessidades.

Sobre a tragédia que se abateu em Moçambique, ouvi as palavras pesarosas do escritor Mia Couto e recordei um livro que li da autoria deste moçambicano, “o último voo do flamingo”. Há uma passagem no final do livro, no capítulo, “Uma terra engolida pela terra”, que nos relata como sulplício, o pai do tradutor, perdera os ossos que pendurara na árvore, porque tudo tinha sido engolido.

O feiticeiro, Zeca Andorinho, garantia que a tragédia se devia ao descontentamento dos antepassados; enquanto o tradutor/narrador defendia que “aquilo era obra da sobrenatureza.” Esta tragédia termina com Massimo Risi, o italiano, a escrever um relatório à ONU onde relata o desaparecimento de um país; depois transformou essa folha num pássaro de papel, lançou-o para o abismo e ficaram à espera que “os flamingos empurrassem o sol do outro lado do mundo”.

É uma história de um país que ficou em pedaços, após uma guerra pela independência e uma guerra civil; um país vítima da ganância das elites poderosas e da corrupção política. Quando as minas que mutilavam, já faziam parte da história, o ciclone Idai arrasou, matou e deixou milhares de pessoas em condições desumanas e a braços com outras calamidades colaterais como as epidemias. Desabrigados, com fome e doentes, precisam de ajuda urgente.

Moçambique, esse país pobre, onde não se fala da pobreza, é ainda vítima de dívidas ocultas, com empréstimos criminosos de bancos britânicos e de banqueiros do Credit Suisse. O povo tem sobrevivido, colocando tijolo sobre tijolo, sem nunca abandonar a sua popular e contagiante colorida alegria. O ciclone mordeu com força a esperança de um povo, que se levantava do chão desminado, mas corrompido por governantes. Agora, faltam tetos!

Perante a maior catástrofe ocorrida naquele país, a resposta internacional está a acontecer, mas a ONU, três semanas depois, afirma que a ajuda financeira às vítimas do IDAE é apenas de 11% das necessidades. Mas até neste ponto se vê a hipocrisia de quem é contra a emigração e os refugiados. Falo do governo do Brasil que deu dez vezes menos do que Timor Leste doou à Cruz Vermelha, conforme desabafou Mia Couto numa entrevista ao Portal de Notícias da Globo. Toda a ajuda é pouca para quem ficou sem nada. Pode ter sido uma catástrofe natural, mas outras se adivinham e decididamente potenciadas pelo homem em todo o mundo. O aquecimento global promete.

Os últimos anos ficaram marcados pela onda de refugiados que fogem da guerra, da fome e da morte. As recentes imagens e notícias do que aconteceu em Moçambique são uma amostra do que, por razões das mudanças climáticas, podemos vir a ter em larga escala. A inconsciência que enferma a humanidade em geral é provocada por uma neurose, dominada pelo egoísmo e abstração da responsabilidade. No Brasil negoceia-se o pulmão do mundo, a Amazónia. É uma das maiores reservas do planeta e, só por isso, é Património Natural da Humanidade.

Almaraz promete continuidade e o lucro manda mais do que a segurança das pessoas e do ambiente. Os nossos governantes parecem padecer de uma contaminação ou subserviência “filipina”. Por cá, a água esquisita do Tejo, do Guadiana e até já do Zêzere, são vítimas de atentados ambientais; e, falarem da Barragem do Pisão, quando se calaram perante o abandono das responsabilidades da EDP, na Barragem da Póvoa e Meadas, não é sério. A água é o bem mais valioso, mas é parecido com o dinheiro, se falta num lado, aparece em excesso noutro. E o negócio da água já é um escândalo a nível mundial.

Não acredito na revolta dos espíritos, defendida pelo místico feiticeiro Zeca Andorinho; admito que a recente tomada de consciência dos jovens em relação ao ambiente, seja uma esperança para salvarmos o que resta. Mas, com o degelo dos polos e o previsível desaparecimento de ilhas no pacífico sul, podemos vir a ter uma onda de refugiados maior do que aquelas a que temos assistido.

Os partidos e governos de direita não lidam bem com as acusações de que, com as suas políticas, contribuem para a destruição do planeta. A consciência não lhes pesa, mas ao menos devia ajudar a admitir os erros. E ao contrário do que afirma a extrema-direita, o problema não são os refugiados, o problema, é um dia, tal como muitos moçambicanos, não termos um refúgio.

Artigo publicado em podcast, em radioportalegre.pt/index.php/desabafos/paulo-cardoso.html a 5 de abril de 2019

Sobre o/a autor(a)

Analista. Membro do Bloco de Esquerda.
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