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Clima: o inestimável contributo de Ferreira Leite

Não há solução climática sem afrontar o capitalismo e o seu modelo de produção extrativista orientado para a acumulação de capital. É por isso que a mensagem de Ferreira Leite é tão valiosa.

O planeta aqueceu e caminha para o ponto de não retorno. Nos Estados Unidos, os conservadores cerram trincheiras dizendo que as alterações climáticas são um fenómeno natural e não induzido pelas atividades humanas. Na Europa, e em particular em Portugal, essa posição é absolutamente residual. Estamos portanto todos a dizer o mesmo? Manuela Ferreira Leite deu um contributo inestimável para este debate.

No seu comentário na TVI (deve ser visto), Ferreira Leite demonizou a greve climática estudantil. Considerou que esse protesto foi uma atitude típica de criança: "faz a asneira e espera que alguém a resolva". De acordo com a antiga ministra das finanças, a solução para as alterações climáticas "passa pela alteração radical de muitos comportamentos" e os jovens devem fazer "propostas de alteração dos seus comportamentos". Ferreira Leite conclui: "não tinham que ir reclamar com alguém para resolver este problema", "todos temos uma quota-parte de responsabilidade do que se está a passar".

O discurso da ex-líder do PSD é o dominante no campo capitalista na Europa: as alterações climáticas são um problema real, os cidadãos são os responsáveis e a solução é alterarem o seu comportamento individual. A diferença é que Ferreira Leite lhe retirou a capa de simpatia e benevolência e mostrou a verdadeira mensagem: caro cidadão, mete-te na tua vida, altera os teus comportamentos e cala-te sobre a organização social em que vives.

O discurso capitalista na Europa sobre alterações é forte precisamente porque é incontestável que, no exemplo da TVI, se use menos água no banho. Ou que não se atire lixo para o chão, ou que se evite o uso do plástico, etc.. É por isso uma excelente cortina de fumo para não se discutir que apenas 100 empresas são responsáveis por 71% das emissões de gases de efeito de estufa. Ou que as empresas poluidoras não pagam as externalidades (poluição, degradação ambiental) que produzem. Ou que a indústria petrolífera faz riqueza a plantar devastação ambiental e guerras. Ou que os equipamentos electrónicos só tem garantia de dois anos e a correspondente obsolescência programada. Ou a justiça climática já que quem menos contribuiu para as alterações climáticas é com com elas mais sofre.

Este discurso tem várias roupagens e gradações, incluindo a "escolha do consumidor" ignorando que se não existirem regras e orientação da produção a escolha do consumidor é diminuta, agravando o fosso para trabalhadores com salários mais baixos e transformando a política climática numa democracia de quem tem mais dinheiro. Mas também do "lavar de alma" de quem à semana vota leis pela liberalização do eucalipto e ao fim de semana vai plantar carvalhos. Ao "exemplo" de quem centra a ação política na sua atividade individual sem propostas alternativas às políticas existentes.

Não há solução climática sem afrontar o capitalismo e o seu modelo de produção extrativista orientado para a acumulação de capital. Só há solução climática se, enquanto sociedade, mudarmos as regras da nossa vivência social, da produção ao consumo, reorientado-a para a satisfação de necessidades sociais e a preservação do ambiente. É por isso que a mensagem de Ferreira Leite é tão valiosa ao mostrar toda a ira perante quem ousa levantar a voz pela urgência climática, ousando questionar a sociedade em que vive.

Sobre o/a autor(a)

Biólogo. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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