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Conan Osíris - o rapaz distópico do futuro do momento

O tsunami Conan Osíris já tinha avisado. O terramoto que o traria estava por aí, na internet, em círculos fechados, em redomas de discriminação estética e fonética.

A cada “este tipo é um boneco”, “nem sequer sabe falar” ou até “parece um cigano a cantar, que horror”, Conan responde com uma afirmação pela diversidade não normativa.

O Ricardo Moreira já o disse, “Soa a escalas árabes, a fado, a música cigana, a cantares alentejanos, a hip hop; soa a Variações, a Amália; soa a kizomba, a dubstep; soa desafinado e soa bem". A componente musical, avaliada consoante os diversos gostos, é sempre suscetível ao escárnio valorativo do que é “boa música” ou não. Não contesto quem não gosta. Contesto quem simplesmente desdenha da distopia étnica e cultural. Contesto quem lhe retira valor porque diz “bué” ou “tipo” em cada frase. Os “bués” e “tipos” da nossa sociedade não vivem em redomas de conhecimentos culturais transmitidos pelo contexto privilegiado. Conan traz uma estética ligada a uma ética. Sim, toda a estética é uma ética. E a dele, parte toda a ética normativa.

Conan não tem um discurso político-partidário, nem se espera que seja o Che Guevara musical mas tem uma existência que a cada letra, performance ou roupa que veste, traz uma afirmação política fortíssima.

Ele traz a mensagem de que o mundo é uma construção social e que será, e é, aquilo que fazemos dele. Todos os dogmas, e os “tem de ser assim porque assim tem de ser” se esbatem simplesmente ouvindo o caldeirão estético e musical de Conan. A letra de “Barcos” toca na ferida, de forma simples, e de forma auto reflexiva e analógica, para uma tomada de consciência de classe sobre o tema dos refugiados: “O sal que te abre a ti não abre a pele deles/ E o frio que mata aí não mata a mãe deles/ E a fome que há aí não mata o pai deles/E o corpo do teu filho não pesa/Nas mãos deles /Eu vejo a merda que sai das mãos deles/E eu vejo-te a ti.”

Muito se tem discutido sobre se deve ir a Telavive, ou boicotar a Eurovisão como afirmação política contra os sucessivos abusos de Israel face à Palestina, seja do ponto de vista do Direito Internacional, seja pela falta de respeito pelos Direitos Humanos. Será mais impactante ir expôr os abusos israelitas, com a amplificação de todos os meios de comunicação social presentes? Ou não ir e juntar-se ao boicote internacional? Ambas as opções precisam de coragem e ambas são justas mas caso escolha a primeira não o devemos julgar como estando do lado errado da história.

Do lado errado da história estará certamente Israel que com o festival tenta dar uma imagem mais positiva ao mundo, querendo varrer para debaixo do tapete todos os atropelos que faz aos direitos humanos do povo palestiniano. É sempre mais fácil tomar decisões quando se tem a vida pessoal assegurada, e é sempre mais difícil quando nunca se teve nada. Ainda assim, que Conan tome a decisão mais difícil, deixando claro que o apartheid israelita não tem duas verdades, apenas uma, a verdade da barbárie.

Sobre o/a autor(a)

Autarca em Lisboa. Investigador em Sociedade, Risco e Saúde.
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