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Conan Osíris explicado ao meu pai

Nele descobrimos um ecletismo radical e não World Music, e é nessa promessa que está a possibilidade de poder empurrar as fronteiras do possível.

O meu pai ficou chocado com o facto de Conan Osíris ter arrebatado o voto do público no Festival da Canção. Aliás, confessou ter ficado preocupado com aquela música. Por isso, e apesar de não ser especialista nem de ter a veleidade de explicar Conan Osíris a quem quer que seja, gostava de tentar clarificar porque é que a música e o artista são tão extraordinários.

Comecemos pela música. Conan Osíris soa a tudo e soa bem. Soa a escalas árabes, a fado, a música cigana, a cantares alentejanos, a hip hop; soa a Variações, a Amália; soa a kizomba, a dubstep; soa desafinado e soa bem.

As suas letras parecem infantis, mas escondem uma enorme profundidade. “Vou estragar o telemóvel/ O telele/ Eu vou partir o telemóvel/ O teu e o meu”, diz Conan Osíris no single “Telemóveis”, o que parece pueril, mas na música “Amália” a letra ganha complexidade: “Tu sabes que a saudade bate forte/ Bate bem mais forte que a sorte/ Tu sabes que a saudade anda aos beijos com a morte/ Sabes que a saudade anda aos beijos com a morte”.

O som de Conan Osíris não é a gozar, não compara com Cebola Mole, Homens da Luta ou Ena pá 2000, mas tem humor e compara, isso sim, com António Variações e Mler Ife Dada nas músicas e com Alain Oulman, Rui Reininho ou João Aguardela nas letras.

A sua estética é como a sua música: eclética, cosmopolita, do mundo. Tiago Miranda inventou uma persona, Conan Osíris, um “rapaz de Lisboa”, que fala cuidadosamente o calão de Lisboa, que veste robes japoneses, ténis berrantes e se adorna com peças de arte. Em palco é sempre acompanhado por João Reis Moreira, um dançarino talentoso, que faz lembrar Bez, o lendário membro dos Happy Mondays.

Conan Osíris é filho da internet. Fez os seus álbuns no quarto, como Sam The Kid e tantos outros antes dele, e difundiu a sua música no SoundCloud e no YouTube. Foi nas redes sociais, no Facebook e no Instagram, que ganhou a sua legião de fãs, a quem ressoaram as letras, a música e a estética, primeiro como meme, depois como artista de pleno direito.

Finalmente, voltemos ao que é mais importante em Conan Osíris – a música. Nele descobrimos um ecletismo radical e não World Music, e é nessa promessa que está a possibilidade de poder empurrar as fronteiras do possível. Quando tudo já tinha sido feito devemos sempre parar quando algo soa a novo, por isso é tão importante descobrir outros artistas que soam estranho, como Allen Halloween, Pz, Memória de Peixe, Paus ou Throes + The Shine.

Não conheço Conan Osíris, não conheço a sua história e nunca o vi ao vivo em concerto. Não sei se vai ganhar o Festival da Canção ou se merece ganhar a Eurovisão em Telavive (onde espero que não vá e adira ao boicote a Israel que mantém a Palestina ocupada e não respeita os Direitos Humanos). Mas espero, pelo menos, ter conseguido explicar ao meu pai que vale a pena ouvir Conan Osíris com atenção, porque não é todos os dias que temos o prazer de ouvir uma música nova.

Artigo publicado no “Jornal Económico” a 25 de fevereiro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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