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A Greve Feminista está a passar por aqui

É a maré alta, como canta o nosso Sérgio Godinho, mas a dessa onda feminista que sacode o conservadorismo, a ortodoxia e o sectarismo incrustados nas rochas.

Há 109 anos, numa reunião da Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, a alemã Clara Zetkin, companheira de armas de Rosa Luxemburgo, propôs a criação de uma jornada internacional de manifestações sociais e sindicais para reivindicar direitos iguais para as mulheres e condições de trabalho mais justas. Porém, as primeiras marchas de mulheres reclamando direitos fundamentais e denunciando a exploração já tinham acontecido no ano anterior, em Nova Iorque. O caminho do dia 8 de Março como Dia Internacional dos Direitos das Mulheres vinha de trás, mas seguiu pelo século XX, pontuando irruptivamente as revoluções e transformando o movimento operário pela inclusão das reivindicações feministas. Tudo isto entre sobressaltos e contradições, é certo.

Por tudo isto, hoje, sabemos que o 8 de Março não é uma simples efeméride, nem obviamente o dia da condescendência machista em forma de bouquet de flores, mesmo que alguns e o mercado insistam nisso. Entre o passado e o futuro, a celebração da luta feminista só pode querer disputar as condições do presente e da política.

Mas, qual será o sentido de uma greve feminista? As suas razões estão bem expressas no manifesto que a convoca. Além disso, são conhecidos os números que quantificam a prevalência da violência machista, bem como os que demonstram a qualidade insuportável da desigualdade atravessada pela pobreza, pelo racismo e a que é gerada pelos múltiplos preconceitos que criam estigmas sobre quem é diferente ou não se encaixa na norma do corpo, da identidade, do género.

O sentido da greve feminista não é simbólico. O uso eufemístico deste termo, seja para desvalorizar a pertinência de uma greve de âmbito sindical, por um lado, ou a greve aos cuidados e ao trabalho reprodutivo, por outro, tem duas origens muito claras: a da tradição da memória estagnada e acrítica, que esqueceu Clara Zetkin ou nunca a reconheceu, e está presente nos movimentos operários e feministas mais conservadores; e a permanente invisibilidade e desvalorização salarial e política da esfera da reprodução social que, apesar dos avanços permitidos pelas democracias liberais, mantém as mulheres presas à precariedade, à dupla jornada de trabalho, às tarefas familiares e aos cuidados da vida, sem os quais o mundo e a humanidade não persistiriam.

O sentido da greve feminista é a emancipação. A propósito de várias polémicas, vale a pena recordar as palavras de Jacques Rancière que define a política como o terreno litigioso da acção que questiona o consenso sobre a distribuição hierárquica dos lugares e das funções, que, por sua vez, determina quem pode tomar a palavra e tem a qualificação para governar ou fazer parte (a polícia). Portanto, a política é definida como experiência de emancipação social e “prática de dissentimento”, ou seja, como “uma ruptura no tecido harmonioso da comunidade que resulta dessa partilha policial do sensível”, onde cada uma e cada um “ocupa o seu lugar dentro da classe [ou qualquer outra categoria social] a que pertence, ocupado com a função que lhe compete e dotado do equipamento sensível e intelectual que convém a esse lugar e a essa função”1.

Ora, o regime da polícia está presente na esfera da política institucional, que regula o conflito social e determina os lugares próprios da contestação, e também numa certa esquerda que, limitada pelos seus próprios tabus, venham eles da ortodoxia ideológica ou dos costumes, continua a ver show-offs nas lutas impróprias ou fora da linha justa, e a ignorar a teia complexa das relações e dos dispositivos de poder que regulam a sociedade e o sistema de (re)produção.

A greve feminista internacional vem questionar este regime, mas não impõe nenhum outro. Como bem lembra Judith Butler, “não é possível nenhuma revolução política sem uma alteração radical da nossa ideia do possível e do real”2. O seu potencial emancipatório está exactamente nessa possibilidade extraordinária de voltar a perguntar o que é a política, qual o lugar da luta feminista, quem é o seu sujeito político, para que serve um sindicato, o que é a igualdade de facto, o que pode ser uma democracia grande, qual o valor do trabalho e que poder podemos gerar quando falamos e agimos juntas, conjugando pluralidade e singularidade.

E a Greve Feminista Internacional está mesmo a passar por aqui. São muitos os colectivos e movimentos que a convocam, várias cidades estão a marcar manifestações, tanta gente envolvida, estão a ser publicados pré-avisos de greve. É um grande começo. É a maré alta, como canta o nosso Sérgio Godinho, mas a dessa onda feminista que sacode o conservadorismo, a ortodoxia e o sectarismo incrustados nas rochas. Aprendam a nadar companheiros e companheiras. O dia 8 de Março e a experiência da liberdade estão à porta.


Notas:

1 Jacques Rancière, O Espectador Emancipado, Trad. José Miranda Justo (Lisboa: Orfeu Negro, 2010 [2008]), pp. 64-65.

2 Judith Butler, Gender Trouble (New York: Routledge, 2006 [1990]), p. xxiv.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora e doutoranda em Filosofia Política (CFUL), ativista, feminista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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