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Os espelhos de Pacheco Pereira

Não foi a esquerda "fraturante" quem abriu as portas ao avanço da extrema-direita.

Na edição do jornal “Público” de 26 de janeiro de 2019, na sua habitual crónica, José Pacheco Pereira (JPP) elabora um conjunto de comentários ideológicos sobre o Bloco de Esquerda. Respeitar as suas opiniões não significa que se aceitem.

Quando o Bloco atinge 20 anos de existência, conhecemos as análises já longínquas de JPP sobre um partido/movimento diferente dos partidos tradicionais. Análises baseadas num espírito dedutivo fora da realidade que somos, transpondo esquemas preconcebidos do género do "radical chic" e outros dichotes congéneres. Só para registo "identitário", entendemos atuar na leitura da luta política de classes, na exata razão em que assumimos um projeto socialista. Coisa diversa é tomar a luta sindical e o mundo operário como únicas referências da luta de classes e do universo do trabalho. Estamos nessas e noutras. Basta seguir a intervenção do partido no Parlamento e na rua, conhecer os seus programas, ver as suas articulações externas ou até falar com os seus militantes, muitos deles oriundos da condição precária do emprego a que cada vez mais estão sujeitas as novas gerações.

Que a social-democracia, por todo o lado, tenha abraçado o capitalismo liberal e assumido a competitividade do mercado contra os valores sociais, está demonstrado, bem como o personalismo de holograma de partidos como o PSD. É um acusatório plausível, bastante plausível, reconheça-se. Contudo, incorporar nessa desanda para a direita aqueles que, para além da emancipação do trabalho, lutam pela igualdade de género, pela justiça climática, pela não discriminação em função da classe, sexo ou da etnia, ou da religião, ou da origem, não passa de uma presunção intelectualmente não justificada. Não preciso de usar a ironia do classificativo de pequeno-burguês, a que se refere JPP, para dizer que tresleu Marx sobre a luta política de classes. Marx apontou as dimensões simultâneas, económicas, estaduais, ideológicas e culturais. A luta de classes está em todas estas áreas. Nem tudo se reduz, como é óbvio, à luta de classes mas nada se dissocia dela em última instância. Aquele a quem nada do que era humano lhe era estranho acabou por ser o exemplo de um pensamento transversal sobre a própria História. Todos esses aspetos foram bem sublinhados em dois congressos sobre Marx que o Bloco de Esquerda já realizou. Esta genérica declaração de interesses serve apenas para que não se assuma, pelo silêncio ou omissão, que há algum tipo de rigor ou anuência na "narrativa" de JPP. Convivemos sem ânsias com tiradas sobre reformismo, afinal há alguém de direita que legitimamente não nos proscreve como Cavaco Silva, nem nos demoniza como a CIP. A luta anticapitalista é mais forte quando se juntam lutas diversas sobre vários tipos de opressão que até podem ser coincidentes em muitas pessoas. Do lado de lá está o sistema capitalista patriarcal. Diz JPP, "resumindo de forma simplificada, a nação não conta". Será talvez por isso que reclamamos instrumentos de soberania face aos tratados europeus ou à NATO. Não sei como qualifique este "festival político", para usar o mimo do autor.

Olhe-se ao conteúdo do escrito de Pacheco Pereira, aquilo que funciona como mensagem: será que a razão de classe é apagada pelas "identidades"? Parece que a maioria das pessoas que sofrem na pele o racismo não são burgueses. Não será que juntam à exploração e desigualdade a discriminação étnica, de todas as cores? A mesma pergunta pode ser repetida para quaisquer outras "identidades". Sim, estas lutas têm sido bem importantes na globalização capitalista que atravessamos. Se os percursos das “identidades” se afastam entre si, tal facto não ajuda à luta geral e, por isso, a convergência de todas as identidades é a solução, não o sectarismo ou a anulação das lutas identitárias, a começar pela luta operária. Dizer que a "melhoria da condição social" ajuda a todas as lutas é sempre uma tautologia. Por isso, o Bloco de Esquerda se empenhou na "geringonça", não foi?

Segundo JPP, as lutas "identitárias", lutas sociais profundas e progressivamente causas maioritárias em nome da igualdade democrática, provocam as causas dos fascistas. Estaríamos a fazer espelho para todos os bolsonaros. Cita até, entre outros, o movimento antiaborto. Sempre saudei JPP por ter sido um dos defensores da descriminalização do aborto em Portugal. Estaremos arrependidos disso? Nem creio que JPP esteja. Não devíamos ter legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo? Não devíamos ter despenalizado o consumo de drogas? Não devíamos ter leis abertas sobre imigração e nacionalidade? Não devemos ter leis sérias sobre violência de género? Não se pode achar, como a larga maioria dos jovens, que as touradas são um espetáculo bárbaro? Não podemos discutir o passado colonial? Com certeza que desagradamos aos reacionários quando melhoramos o estado de direitos e a cultura plural. Isso será razão para abdicarmos de perspetivas progressistas? Se a lógica fosse essa, nem a luta sindical se aguentava. Não faz sentido. Percebe-se que JPP ache que os setores centristas e liberais passam por um mau bocado, confrontados à extrema-direita e à esquerda, e uma pausa ajudaria à mítica recuperação desse espaço. O desejo é compreensível, mas não se pode exonerar os responsáveis pelo avanço da extrema-direita. Não foi a esquerda "fraturante" quem lhes abriu as portas. Culpar quem luta contra o opressor atinge ao mesmo tempo a condição e a consciência da pessoa oprimida.

A esquerda não diz adeus a Marx, nem o absolutiza. O pensamento dialético, também marxista, supera dogmas e pronúncias de heresias. Felizmente, há razão.

Artigo publicado no jornal “Público” a 3 de fevereiro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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