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A verdadeira força poluidora

As previsões são assustadoras. Se nada mudar, em 2025 existirá nos nossos oceanos uma tonelada de plástico por cada três de peixe. Até 2050, teremos mais plástico nos oceanos do que peixe. De quem é a culpa?

Enquanto a discussão se resume à mera moda do “verde” e do “desenvolvimento sustentável”, o debate está descentrado. As grandes multinacionais, que dependem diretamente de combustíveis fósseis, assobiam para o lado apontando o dedo ao indivíduo e aos nossos padrões de consumo. Instalaram o sentimento de culpa nas pessoas, responsabilizando-as do estado a que isto chegou, para aligeirar as suas responsabilidades.

Se pensarmos que apenas a 100 empresas são atribuídas 71% das emissões de carbono desde 1998, qual será realmente o resultado da palhinha de aço inoxidável ou o saco de pano? Não é que estas medidas sejam erradas, antes pelo contrário, mas não colocam o dedo na ferida que verdadeiramente faz mossa ao nosso planeta.

É claro que consumir menos, comprar produtos locais, apostar em objetos do dia-a-dia amigos do ambiente, reutilizar e reciclar, utilizar transportes públicos e mudar as lâmpadas lá de casa são tudo boas práticas que devem ser fomentadas. Contudo, será esse o objetivo final para derrotar o lobo que está à porta? Que sentido farão estas ações se as grandes empresas continuam a explorar um planeta como se existissem mais quatro iguais?

Desde a altura em que o real problema das alterações climáticas começou a estar na ordem do dia, deparamo-nos diariamente com campanhas de sensibilização nas escolas, nas televisões e nas redes sociais relativamente ao problema criado pelos nossos padrões de consumo. O problema aqui, contudo, está no alvo.

Para além da desregulamentação da economia, das políticas de privatizações e dos perdões fiscais, se há vitória que também devemos atribuir ao neoliberalismo é o de ter conseguido exacerbar no ser humano o sentimento individualista e despi-lo de qualquer solidariedade. Isto resultou em empresas que acumulam ridículas quantidades de mais-valia e atuam com uma impunidade violenta, quer com os trabalhadores, quer com o ambiente. Estas multinacionais conseguem assim os seus objetivos principais: uma carta branca para atuar como bem entendem e o estrangulamento das ferramentas do Estado que protegem os interesses comuns.

Numa altura em que é urgente passar à ação, os inimigos não são só as palhinhas ou os copos de plástico. O inimigo principal é o modelo capitalista de desenvolvimento e a maioria das empresas que continuam em contraciclo com uma verdadeira política de desenvolvimento ambiental e sustentável.

Vejamos qual era uma das principais bandeiras de Trump ou Bolsonaro. Ambos ameaçavam com a retirada dos seus países do Acordo de Paris. Trump já o fez. Bolsonaro certamente o fará. Este tipo de práticas e discursos devem fazer-nos pensar. A decisão destes líderes é ideológica e serve sempre o propósito do capital.

Se os transportes públicos não respondem com eficácia à rotina das pessoas, as pessoas vão utilizar o automóvel pessoal. Se produtos biológicos e sustentáveis são caros, automaticamente somos obrigados a recorrer a cadeias de hipermercados. Se os bens de consumo, baratos e produzidos em massa, inundam o mercado, a grande maioria da população, tantas vezes em situação de carência económica, vai comprar. O consumo sustentável poderá fazer a diferença na vida dos indivíduos, mas só o movimento de massas e a ação política irá ter o resultado desejado. As pessoas têm responsabilidade em assumir comportamentos e modos de vida ambientalmente sustentáveis, mas ignorar o sistema económico capitalista e a globalização é atirar ao lado.

A única forma de controlar as emissões de carbono e apostar em políticas sustentáveis que defendam eficazmente o meio ambiente é devolver à esfera pública os setores energéticos e os transportes de maneira a fomentar a responsabilização. A regulação das empresas de forma a, faseadamente, abandonar a dependência de combustíveis fósseis e a taxação adicional de forma a redirecionar esse dinheiro para investimentos em energias renováveis e respostas públicas sustentáveis são a única solução real. Só assim é possível começar a equacionar formas de todos nós, enquanto sociedade, dar uma resposta a nível local, mudando os nossos hábitos de consumo.

É inegável o sentimento individualista presente que o neoliberalismo deixou. É inegável que vivemos numa sociedade de consumo que opera a um ritmo alucinante. É também inegável que funcionamos quase como meros consumidores e não como cidadãos interdependentes, capazes de fazer a diferença. Mas, porém, é também inegável que a natureza humana nos faz trabalhar em conjunto na procura de soluções para os problemas urgentes. E este é, sem dúvida alguma, um problema urgente.

Sobre o/a autor(a)

Designer e deputado municipal do Bloco de Esquerda em Santa Maria da Feira
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