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2019 em três riscos

Se houver uma perturbação financeira, a consistência da resposta dos bancos centrais e governos pode ser decisiva. Ora, se for precisa cooperação para responder a uma crise, na Casa Branca há Trump.

No dia 31 de janeiro deste ano que finda, Alan Greenspan explicou candidamente que havia duas bolhas, de obrigações e de ações. Uma semana depois, numa só hora, a bolsa teve a sua maior queda desde o subprime. Voltou logo tudo ao normal. Ninguém sabe o que aconteceu. Nas vésperas deste Natal, a mesma coisa, queda abrupta. Depois, subida confortável. Os mercados andam “nervosos”, dir-se-á. Pois há boas razões para isso.

Ganância

Greenspan dirigiu durante 19 anos o banco central dos EUA e dizia em 2002 que “grande parte da nossa comunidade empresarial parece ter sido dominada por uma ganância contagiosa (...). O problema é que os meios para manifestar essa ganância cresceram desmedidamente”. Mas nem por isso esses meios foram controlados e, assim, se desde 1945 até ao final dos 1970 não houve grandes crises bancárias, agora é a rotina.

Tanto era assim que, em 2005 Raghuram Rajan, então o economista-principal do FMI, provocou um escândalo numa conferência de homenagem a Greenspan, perguntando se “o desenvolvimento financeiro [teria] tornado o mundo um lugar mais arriscado”. A sua resposta foi que “o desastre poderá estar iminente”, pois os gestores têm “incentivos para aceitar riscos que estão ocultos dos investidores”. A reação dos colegas foi indignada. Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, terá respondido que Rajan era o que se traduziria por um “velho do Restelo”. De facto, a carreira de Greenspan constitui um sucesso na desregulação, o que ele explicava abertamente: “À medida que entramos no novo século, as forças regulamentadoras privadas de estabilização do mercado deverão substituir gradualmente muitas das estruturas governamentais incómodas e cada vez mais ineficazes. Trata-se de um futuro provável, pois os governos, pela sua própria natureza, não se conseguem ajustar com celeridade suficiente a um ambiente em mudança que tantas vezes segue rumos imprevistos”. No ano seguinte à sua reforma, veio o crash do subprime.

O primeiro risco de 2019 é este: a desregulação não só prosseguiu como, com juros baixos, foram estimuladas mais aventuras especulativas. Além disso, o crescimento das bolsas está muito preso às empresas tecnológicas, desde 2013 quase 40% do aumento do índice S&P depende de seis grandes (Alphabet, Amazon, Apple, FB, Microsoft, Netflix). Pode estar nelas o perigo de sobrevalorização. O “nervosismo” da finança é por se conhecer ao espelho.

Montanhas de dívidas

O segundo maior risco de 2019 é a montanha de dívidas. As dívidas transfronteiriças são hoje de 30 biliões de dólares, eram 9 há vinte anos. A dívida pública chinesa é o dobro da de 2009, a das empresas chinesas é de 450 mil milhões em dólares, era então zero. O balanço do BCE triplicou para cerca de cinco biliões de euros. É certo que esta absorção de dívidas no BCE é estabilizadora, não é tão vulnerável a pânicos de empresas, e que a China tem reservas e um superavit que a protegem. Mas aqui entra o fator político, pois o terceiro risco é a turma de governantes do mundo.

Os governantes são um problema por dois motivos imediatos. Por um lado, o balanço do BCE não vai manter eternamente essas dívidas (podia e devia, mas não vai ser assim). E a escolha do momento e da forma para a vender pode ser desastrosa para as condições de financiamento dos Estados e empresas. A viragem à direita na União Europeia e a escolha do sucessor de Draghi agravam este risco. E, por outro lado, se houver uma perturbação financeira, e ainda nos últimos dias tivemos disso um sinal, a consistência da resposta dos bancos centrais e governos pode ser decisiva. Ora, se for precisa cooperação para responder a uma crise, na Casa Branca há Trump.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 29 de dezembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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