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Colet(ivização) amarela

Não se trata apenas da taxa sobre os combustíveis. É uma luta de várias lutas pela justiça social.

Durante cerca de 3 semanas, intensos protestos de manifestantes vestidos de coletes amarelos, foram desencadeados pelo anúncio de uma taxa sobre os combustíveis. Esta taxa pressupunha que aumentando o preço do combustível haveria menos consumo e portanto haveria uma redução automática de emissões poluentes para a atmosfera. Não se trata de não se ter que reduzir o consumo de combustíveis, a questão é mais profunda e tem que ver com o sistema como um todo, como e para quem este funciona.

Macron, o responsável por esta taxa, é um personagem político que no passado já havia dito que os seus antecessores haviam sido brandos para com as manifestações, chegando ao ponto de afirmar que a “democracia não está na rua”. É um presidente que apenas vê como objetivo reformista tornar a França num país “business friendly” e que para isso aposta na cartilha ultraliberal, aumentando a carga de impostos sobre as classes mais baixas, aliviando o topo dos 1% mais ricos e premiando o Capital.

Não deixa por isso também de ser sintomático que o líder desta marcha ultraliberal, conte neste momento com o apoio de apenas 18% da população. Para quem advoga que a luta de classes jaz algures na história, será interessante constatar que 70% dos franceses apoiam as manifestações dos "coletes amarelos". É importante também não esquecer que Marine Le Pen espreita a oportunidade do assalto ao poder e cada opção política neoliberal lhe dará mais força. Cabe à esquerda saber disputar o ringue desta contestação.

No efeito dominó do crescimento dos fascismos e populismos por todo o Mundo seria crível que este seria mais um grande movimento de nacionalistas ou fascistas. No entanto, o movimento de coletes amarelos não toca em qualquer ponto nacionalista, não é contra a intervenção do Estado, apenas querem que seja mais justa e chegam inclusive a pedir melhores condições para migrantes. Também não se trata de negar ou admitir as alterações climáticas. O cântico que ecoa nas ruas de Paris responde: “Fim do Mundo ou fim do mês, a mesma luta”.

O foco da luta é ter melhores condições de vida, mais salário, mais justiça social, climática e de redistribuição de rendimentos. É uma afirmação contra a perda de todas as conquistas sociais, de raiva contra as elites económicas. A extrema direita tenta em França cavalgar este descontentamento, tal como parece querer fazê-lo também Portugal. Macron ajuda a isso quando fala em lançar um debate nacional sobre imigração quando nunca foi esse o tema em questão.

É por isso que a política de devolução de rendimentos, do pós governo PSD/CDS, foi tão importante para contribuir para a coesão social em Portugal. É por isso que é também tão importante saber que muito falta fazer por cá, que a luta tem de ser feita toda, composta de todas as lutas, e que ninguém pode ficar para trás. Nenhum direito deve ser dado por adquirido, aqui, em França, em todo o lado.

Sobre o/a autor(a)

Autarca em Lisboa. Investigador em Sociedade, Risco e Saúde.
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