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Para JMT, a igualdade é ninguém ter direitos

Ah, o que eu gosto da nossa estimada direita democrática. João Miguel Tavares (JMT), na senda dos apoios a Trump e Le Pen, resolveu atirar-se ao direito à greve dos funcionários públicos.

Vejam a acutilância dos argumentos:

"Muitos funcionários públicos nem os salários perdem, porque os sindicatos quotizam-se para repor o dinheiro."

E os sindicatos quotizam-se junto de quem, caro JMT? Vendem rifas na rua?

"Pior: essas greves são feitas num setor onde o trabalhador nunca corre o risco de perder o emprego."

É, de facto, uma pena a proteção do trabalho. Se se pudesse despedir os grevistas, andava tudo mais mansinho.

"Nos Estados Unidos, estão mesmo proibidos de fazer greve na maior parte dos estados, incluindo Nova Iorque."

Um exemplo para todos nós, vindo de um país que está nos últimos lugares da OCDE em desigualdade de rendimentos, taxa de pobreza, taxa de pobreza infantil e taxa de trabalhadores pobres da OCDE, nesta última batido pela Polónia, que é um dos outros dois exemplos para JMT. O terceiro é um paraíso fiscal (Luxemburgo).

"As greves no sector público não são um problema apenas entre o trabalhador e o seu empregador – como acontece, por exemplo, no caso da Autoeuropa, que é uma questão entre a Volkswagen e os seus funcionários, com a qual pouco ou nada temos a ver."

Os argumentos da direita sobre greves e Autoeuropa são de geometria muito variável. Se os estivadores fazem greve, estão a prejudicar o país porque a Autoeuropa não consegue escoar os automóveis. Se são os próprios trabalhadores da Autoeuropa que param, já não faz mal. E se a greve for na EDP? E se for na Fertagus? Também só afetam o patrão e o trabalhador? Todas as greves afetam terceiros. JMT defende o direito à greve, desde que seja o de trabalhadores que podem ser despedidos no dia seguinte.

"Se o setor público tem privilégios únicos, também deveria ter obrigações exclusivas. Algo tem de mudar."

Os trabalhadores da Função Pública gozam de direitos de trabalho elementares nos quais assentaram todas as democracias europeias e um contrato social que deu à Europa o seu maior período de prosperidade de sempre. Um privilegiado é alguém que ganha mais do que qualquer funcionário público para ser a voz dos donos. E que, vendo trabalhadores com direitos e trabalhadores sem direitos, não hesita: Tire-se os direitos a todos!

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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