You are here

A lógica mercantilista do museu e ainda o caso Serralves

A censura de Serralves é um sintoma e não uma causa. A parceria entre o público e o privado no museu pode gerar conflitos de interesses e de estratégia, convertendo-o num lugar de disputa.

Encontra-se atualmente em proposta de diploma o Regime jurídico de autonomia de gestão dos museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos. As alterações introduzidas vão desde a configuração de unidades orgânicas até à exigência da capacidade de gestão como requisito para a contratação do diretor do museu. Pensado num contexto de desinvestimento na área da cultura, este novo critério abre espaço para refletirmos não apenas na empresarialização do museu - e lógica mercantilista subsequente - mas também no papel das empresas privadas na sua gestão e administração.

Temos observado com o caso Serralves como a dependência a fundos privados ou a subsidiarização pública a fundações privadas nas organizações dos museus podem gerar conflitos de interesses e por isso potenciar decorrências antidemocráticas. O Conselho de Administração tem sido acusado de alegada ingerência no trabalho do seu ex-diretor por ter retirado obras à fluidez do circuito expositivo - um trabalho curatorial pensado e trabalhado por João Ribas - que os mesmos consideram ofensivas, colocando-as em circuito fechado e proibindo o seu visionamento a um determinado público. O caso atingiu amplas proporções mediáticas de indignação, sobretudo na comunidade artística. Uma linhas de trabalho de Robert Mapplethorpe é atravessada por um ativismo dos direitos humanos pelo seu esforço em dar visibilidade a uma cultura gay e queer dos anos 1970 e 1980 que permanecia escondida. É a fotografia enquanto expressão e afirmação da cultura LGBTI em confronto com um país puritano, moralista e o artista enquanto agente de intervenção na comunidade. O seu trabalho não era por isso imune à análise do modo como arte funciona na sociedade, como é percecionada, e sobretudo como o museu a acolhe e gere esse impacto. Foram vários os casos em que diretores de museus, como o de Dennis Barrie do Contemporary Arts Center que, em 1990, em Cincinnati, Estados Unidos, foram acusados de obscenidade por terem acolhido obras deste artista. Daí que, a confirmar-se, o que se passou em Serralves constitui censura ao trabalho do artista, indiferença ao significado social do museu e seu papel na comunidade além de um ato de ingerência ao trabalho de curadoria que é sempre autoral. Tal como não faz sentido rasgar as páginas ditas ofensivas de um livro para as “limpar” da narrativa e colocá-las num capítulo à parte, não é adequado colocar obras que alguém entende serem obscenas numa sala afastada do circuito natural da exposição com isso retirar validade e legibilidade à abordagem escolhida pelo curador. Este fenómeno expõe ainda um entendimento do museu enquanto prestador de um serviço ao visitante - o da visita ao museu e à exposição - e a satisfação do seu bem-estar o que vai ao encontro de uma lógica mercantilista.

Mas a censura de Serralves é um sintoma e não uma causa. A parceria entre o público e o privado no museu pode gerar conflitos de interesses e de estratégia, convertendo-o num lugar de disputa. Podemos ainda acrescentar, a título de exemplo, as conversações entre este museu e o Guggenheim de Bilbau para o acolhimento de uma exposição de Joana Vasconcelos que está atualmente nesta instituição espanhola, ficando ainda por esclarecer se ocorreram unilateralmente e por isso à margem do que é programado pelo diretor. A celebração destas parcerias para instituições culturais foi amplamente explorada durante administração Thatcher. É nesta altura que a Tate expandiu o número de galerias, ao mesmo tempo que eram lançados programas para tornar mais próximos os negócios privados da cultura através do incentivo ao investimento de grandes empresas na arte. À direita sempre lhe interessou a afirmação de uma cultura elitista para um propósito de delineação e prossecução de classe. Por isso, a par da privatização de empresas estatais de vários sectores (telecomunicações, energia, transportes, água), a direita neoliberal procurou também saber de que modo é que sector cultural poderia ser explorado a fim de proporcionar ganhos ao investimento privado, pensando numa oferta de interesses onde a empresa deteria a sua parte. É caso flagrante o do ex-patrocinador da Tate, a BP British Petroleum, responsável por uma das maiores catástrofes ecológicas de que há memória, e que se serviu desta instituição para “limpar” a reputação depois do derrame de 4,9 milhões de barris de petróleo no oceano.

Também estas parcerias por vezes funcionam em desequilíbrio, compensando a parte que detém o poder financeiro. Os atropelos à função do diretor por força da depauperação das instituições e da lógica empresarial retiram espaço à sua missão principal. O diretor torna-se assim menos investigador, programador, agente na comunidade, tornando-se o eixo de uma cadeia de produção que converte o museu num ativo financeiro e que por isso pressupõe sempre um retorno. Além de fazer cumprir as implicações do parceiro privado, o gestor passará por multiplicar os produtos de marketing, basear os recursos humanos em regimes de voluntariado ou render-se à figura dos grandes êxitos de bilheteira que por vezes confundem cultura com entretenimento. Esta lógica ameaça a independência da instituição inserindo-a mais numa máquina de produção cultural e menos num espaço de reflexão e de intervenção na sociedade. Neste contexto percebe-se que, sendo a arte legitimada pela instituição, o museu é valorizado pelo seu discurso, pelas suas opções, pela credibilidade, onde a liberdade académica e integridade intelectual do director são valores fundamentais.

Face a uma crescente oferta turística e consequente proliferação de museus privados com características de entretenimento ou megaexposições é fundamental privilegiar a vocação pública do museu. As parcerias com empresas privadas, quando não garantem a independência das instituições, são um modo de fragilização e de controlo, com outros fins que não o papel essencial do museu na sociedade. Por isso é que a ingerência do Conselho de Administração de Serralves no trabalho dos diretores, bem como nos processos de escolha de programação, não são nem serão novidade no futuro porque, tal como afirma Nicholas Serota, ex-Diretor da Tate Art Museums: “Não há dinheiro que seja completamente puro”.

Sobre o/a autor(a)

Historiadora da arte e curadora de formação. Dirigente do Bloco de Esquerda
(...)