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Tempos da finança: uma PPP do pensamento económico?

Com muita pompa e circunstância, foram inauguradas as novas instalações da "escola de negócios", perdão, New School of Business, sendo mais explícito (e em português ...) Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

Com muita pompa e circunstância, foram, em 29/9/2018 (sábado), inauguradas as novas instalações da "escola de negócios", perdão, New School of Business (Nova SBE), sendo mais explícito (e em português ...) Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

Deslumbramento: edifício de raiz, 46.000 metros quadrados, frente à praia de Carcavelos (tem mesmo um acesso dedicado à praia), muitos espaços de convívio, vários restaurantes, cafés, bares, ginásio e outras condições de conforto e lúdico-académicas (e vice-versa).

Quem dera que todos os estabelecimentos de ensino (superior e não só) assim fossem!

Pois é. Mas, ... 50 milhões de euros.

O que surpreendeu na inauguração (para além de desencontros presidenciais por causa de festas de anos infantis) é que, tanto quanto se sabe, quem lá preponderou não foram actuais e antigos alunos e professores mas, sim, ... quem pagou a obra.

O Estado, claro, dirá algum leitor. Trata-se de uma universidade pública. E, daí, naturalmente, a presença do Sr. Presidente da República.

Só que quem lá preponderou não foram actuais e antigos alunos e professores mas representantes de empresas privadas. E dir-se-á, de novo, naturalmente, porque o pagamento da obra foi, essencialmente, privado.

42 dos 50 milhões de euros foram ali investidos, digo, doados por empresas privadas ( 37), de entre as quais se destacaram, o Grupo Jerónimo Martins, o Banco Santander, a EDP e outras grandes empresas.

De qualquer modo, repito, quem dera que os alunos e professores de todos os estabelecimentos de ensino (superior ou não) dispusessem de instalações como estas.

Mas, para além das idas à praia pelo tal acesso e a fruição dos bons restaurantes e dos espaços de convívio, há algumas razões para se ficar preocupado quanto a um pequeno pormenor.

E este “pequeno” pormenor é o que lá se vai ensinar. Ou melhor, o que lá se vai continuar a ensinar.

É que esta inauguração trouxe-me à memória o que, há uns anos, dizia publicamente um anterior director desta "escola de negócios "1, defendendo, implícita mas objectivamente, a liberalização dos despedimentos de antes do 25 de Abril de 1974, na linha com a tal "refundação" da Constituição preconizada pouco antes por um candidato (e, depois, efectivo) primeiro-ministro:

-"O problema é os que estão não darem lugar aos que não estão";
- "Não há a coragem de atacar os que estão empregados";
- "Há excesso de estabilidade para aqueles que têm emprego";
- A escolha, hoje, é entre a instabilidade do emprego e a estabilidade do desemprego";
- "A legislação laboral que protege os que têm, os que estão, é a maior inimiga dos que não têm, dos que não estão";
-"Portugal tem uma legislação laboral extremamente proteccionista".

Pois é. Preocupa que, ainda que confortavelmente, muito confortavelmente sem dúvida, se possam continuar ali a ensinar estas referências curriculares.

Preocupa ter (como já tivemos) como eventuais gestores de empresas, deputados, ministros ou até primeiros ministros ou presidentes da República licenciados, mestres ou doutores com orientações académicas (epistemológicas e empíricas, teóricas e práticas) neste sentido.

Tanto mais que se presume serem tão do agrado das empresas privadas investidoras, digo, doadoras do dinheiro, do financiamento da construção das instalações.

Será que – perguntar não ofende - também, de algum modo, influenciadoras do currículo, do que lá se vai ensinar?

Os investimentos têm que ter retorno (seja ele material ou imaterial, conjuntural ou estrutural, táctico ou estratégico), é uma regra básica da boa gestão empresarial. É, aliás, o que se ensina em qualquer Faculdade de Economia. Muito mais – presume-se – numa “escola de negócios” (business school).

A ser assim, seria caso para concluir que, também aqui, na área do pensamento económico e gestionário (e, necessariamente, político), teríamos (mais) uma parceria público-privada (PPP).

Enfim, preocupa que a Economia que lá se ensine possa não ser, essencialmente, a Economia para as pessoas, a Economia como ciência eminentemente social de Karl Polanyi e de Keynes e seus seguidores mas, ainda, essencialmente, a Economia eminentemente financeira(ista) de Milton Friedman e seus discípulos passados, actuais e futuros.

É claro que, talvez por via de se confirmar esta última hipótese curricular, a "escola de negócios" está altamente creditada (top five, salvo o erro) nos rankings do Finantial Times.

Mas, nestes "tempos da finança", não sei se isso tranquiliza alguma coisa ou se preocupa ainda mais…


1 Isto foi dito no programa da RTP1 "Prós e Contras" de 28/2/2011, pelo então director da Faculdade de Economia da Universidade Nova, Dr. José Ferreira Machado.

Sobre o/a autor(a)

Inspector do trabalho aposentado. Escreve com a grafia anterior ao “Acordo Ortográfico”
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