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O que está a mudar à esquerda nos Estados Unidos

Esta esquerda convergente, militante, com um discurso sólido e vontade de disputar o poder, é uma novidade nos EUA.

Tirando momentos de convergência de rua, como Occupy Wall Street, ou movimentos de cariz mais defensivo (como o Black Lives Matter), a esquerda nos Estados Unidos viveu, nas últimas décadas, entalada entre um discurso identitário de micro-organizações socialistas e um partido democrata amorfo, confortável no papel de “mal menor” no seio do rotativismo bipartidário. O discurso de derrota de Hillary Clinton em 2016 com o mote “devemos dar uma oportunidade a Trump” foi bem esclarecedor sobre a fé rotativista do Partido Democrata. Porém, hoje sabemos que a eleição de Trump virou o mapa político à esquerda nos EUA e as elites do Partido Democrata lutam agora pela sobrevivência em muitos estados. Ao mesmo tempo, uma esquerda política ganha força com uma estratégia que se começa a desenhar em 3 eixos: 1) a preparação de uma alternativa à direita em 2020 pelo movimento Our Revolution de Bernie Sanders dentro do Partido Democrata; 2) a convergência numa organização socialista fora do Partido Democrata, os Socialistas Democratas da América; 3) uma mensagem política clara assente no emprego, nos serviços públicos e nos direitos humanos.

Os resultados de Bernie na disputa contra Hillary deram-lhe legitimidade para continuar a sua luta pelo que sobra do Partido Democrata. Esta estratégia já se mostrou capaz de mobilizar sectores à esquerda do partido, de fazer ecoar uma mensagem progressista a nível nacional e de, pragmaticamente, manter acesa uma luz de vitória dentro do bipartidarismo americano. Fiel à sua estratégia, o Our Revolution de Bernie tem ganho espaço, elegendo Pramila Jayapal e Jamie Raskin para a Câmara dos Representantes e preparando-se para eleger Ben Jealous como Governador de Maryland. Porém, a disputa do Partido Democrata está longe de ser uma estratégia segura. O melhor que Bernie pode conseguir em 2020 é ser o candidato de um partido pesado, burocratizado, sem expressão sindical, refém dos interesses, habituado à militância de gabinete, ao telefonema para o donativo e às jogadas de bastidores. Por mais gente nova que entretanto se junte ao partido, os riscos de Bernie ser engolido por esta máquina complexa não são de desprezar. Convém à esquerda, portanto, diversificar estratégias para não comprometer o que o Occupy começou e Bernie está a continuar.

É precisamente aqui que vale a pena olhar para o crescimento dos Socialistas Democratas da América (SDA). Criado em 1982 como convergência de partidos comunistas e socialistas, os SDA foram sempre uma micro-organização de ativistas americanos, oscilando entre os 5 e 6 mil militantes. Contudo, desde a eleição de 2016, os SDA passaram a ser o ponto de encontro de várias tendências e formas de ativismo que ali convergiram pela urgência de uma resposta a Trump, cresceram de 5 para 49 mil militantes e transformando-se na maior organização socialista do último século nos EUA. Neste ano, os SDA juntaram gente, apoiaram candidatos às primárias do Partido Democrata (alguns em conjunto com o Our Revolution), radicalizaram o discurso e introduziram uma nova forma de fazer política. Com propostas para criação de emprego, políticas públicas de saúde e ensino, leis anti-discriminação e anti-armas, elegeram representantes em cidades improváveis, como Knoxville, Tennessee (onde em 2016 Trump teve o dobro dos votos de Hillary). Estiveram por trás da recente vitória de Alexandria Ocasio-Cortez em Nova Iorque nas primárias para a Câmara dos Representantes, que provou que é possível ganhar eleições nos EUA com campanhas de mais militância e menos recursos (Ocasio-Cortez fez a campanha com $200k contra os $3.4M de Joe Crowley).

É certo que ainda muito está por fazer, mas esta esquerda convergente, militante, com um discurso sólido e vontade de disputar o poder, é uma novidade nos EUA.  Mas, principalmente, é a garantia de que uma esquerda organizada veio para ficar, independentemente do aconteça com Bernie Sanders e o partido democrata.

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