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A tragédia da direita portuguesa

Nos últimos anos, a direita, com as suas famílias e constelações variadas, encenaram uma tragédia em quatro atos.

Primeiro ato: a contestação ao novo governo. Quem não se recorda? Antes da posse, enquanto Cavaco invocava os limites do “arco da governação” - a União Europeia, a CPLP (eufemismo para burguesia Angolana) e a Nato - levantando um muro ao Bloco e ao PCP, a direita parlamentar tentava cunhar o “governo dos derrotados” como narrativa geral e a milícia jornalística do Observador clamava à revolta popular. Um movimento que durou o que podia com quem queria. Pouco e muito poucos. Nem seis meses passados, Cavaco saía como o presidente mais impopular em fim de mandato, começava o calvário de Passos Coelho e José Manuel Fernandes cogitava com os seus botões e acionistas das alternativas possíveis.

Segundo ato: o fantasma da bancarrota e o vexame internacional. Paulo Portas deixou o aviso que não adiantaria pedir socorro quando a mão pesada de Bruxelas se abatesse sobre Portugal como a oitava praga do Egito e João César das Neves preparou com esmero a obra que é já hoje considerada um clássico do pensamento económico, As 10 questões do Colapso, Portugal: a provável derrocada financeira de 2016-2017 (Dom Quixote, 2016). Sendo certo que a sombra de Bruxelas pairou mesmo sobre as nossas cabeças, com meses de infindáveis ameaças, o papel de mercearia fina ficou entregue ao Conselho de Finanças Públicas (CFP). Teodora Cardoso arriscou muito e errou quase tudo. Ao criticar o aumento do consumo privado como foco de uma possível nova crise, este Conselho (criado apenas em 2011, com consenso do PS e PSD), chocou precisamente com a alavanca do crescimento económico: a devolução de rendimentos e a mitigação das medidas de austeridade.

Terceiro ato: não veio a bancarrota, mas vieram os incêndios e o caso Tancos multiplicou-se nos editoriais. Não nos enganemos, sabemos hoje melhor do que nunca das causas, das falhas e das responsabilidades que resultaram na tragédia de Pedrógão e a dívida do Estado com as vítimas dos incêndios de 2017. Mas onde muitos viram uma oportunidade para debater a fundo o problema, a direita viu uma manobra. De uma assentada, Passos Coelho secundou a moção de censura do CDS-PP e endossou a tese da “crise de Estado”. E Tancos só podia senão confirmar o afundamento das instituições no pântano das esquerdas. Marcelo também não esteve distante, aproveitando a atabalhoada gestão do PS nestes dois temas para marcar uma posição conveniente. A indignação ensaiada não passou, todavia, de um ritual que mexeu mais com as emoções do que com as escolhas futuras. Gritaria sem alternativa só poderia resultar em calmaria eleitoral.

Quarto ato: Esta dificuldade da direita é na verdade um vórtice programático. Quanto mais fracas as propostas e a adesão popular, mais forte o movimento para a moralização rasteira do debate. A tentativa de polarização à volta da Justiça é disso um primeiro exemplo. Ao erigir Joana Marques Vidal como a mártir anti-Sócrates, e ao encerrar neste último todos os males da corrupção no país, uma parte significativa da direita tentou um exercício acelerado de expiação. Interessa pouco falar na inação do Ministério Público no caso Tecnoforma, no arquivamento do caso dos submarinos de Portas e muito menos na ausência de uma verdadeira reforma da justiça (também recusada pelo PS). O importante foi mesmo o exercício de tensão e separação das águas, com o resultado conhecido: meses de campanha pública, mobilização intensa, o regresso de Cavaco (prontamente humilhado por Marcelo) para terminar em caso de folhetim do qual não rezará a história.

Cair do pano, a última trama. Quem a descreve é o insuspeito Adolfo Mesquita Nunes, “Há quem pense que [o caminho é] o de bradar a palavra direita a todo o momento e o de buscar conflito ideológico com a esquerda em toda e qualquer questão (...) Nesse caminho, torna-se quase indiferente a proposta ou a mensagem, porque o importante é desacreditá-la vinda daquele mensageiro. Não importa se a proposta faz sentido, apenas faz sentido atacá-la vinda de quem vem”. Ora nem mais. A escalada do discurso à direita é disso prova, a começar pelo CDS do próprio Mesquita Nunes, que tenta a todo o custo cunhar a expressão “esquerdas encostadas” como selo de incapacidade política (expressão recentemente reivindicada por um pequeno sector à esquerda). Mas é pelo exagero aberrante que este movimento ganha força, como vimos esta semana nas palavras de Sandra Pereira, deputada do PSD que invocou Stalin para chumbar a proposta de leques salariais do Bloco (discussão em curso um pouco por toda a Europa) ou pelos escritos de Ana Sá Lopes, que acusa o Bloco de trumpismo como o mais leve dos seus pecados.

Esta bolsonarização do discurso à direita encerra uma necessidade de inundar o debate público com imagens banais, simplificadoras dos referentes políticos: a esquerda é perigosa pois o perigo é a esquerda. Para isso é preciso multiplicar os casos e subir o tom: a mobilização total contra o Bloco na vereação de Lisboa, intrusão e lodaçal da vida privada onde até o luto é desrespeitado, a incessante invocação da Venezuela como exemplo de um governo de esquerda (pese embora os laços duradouros de Paulo Portas com o executivo de Caracas). A política suja da insídia e do boato como candeia nesta hora mais obscura.

Cá estaremos para ver o fim da tragédia desta direita autofágica, abandonada pelos seus mais fiéis patronos, que a cada desastre flertam mais ainda com a possibilidade de uma maioria absoluta do Partido Socialista como a via de regresso à normalidade.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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