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Serviço Militar Obrigatório: pr’a esse peditório o pessoal já deu

O aumento da despesa com a NATO, que Trump exige e Mário Centeno não enjeita, deve ser confrontado com a alternativa de formar e reforçar uma estrutura de defesa civil a sério.

A defesa do SMO (Serviço Militar Obrigatório) por parte da direita e dos verdadeiros patriotas liberais e até de esquerda não se limita, nem quase se lhe referem, aliás, à necessidade de assegurar os efectivos que a NATO exige tendo como porta-voz o Ministro da Defesa a partir da Lituânia (onde temos tropas para defender a Europa dos russos naquela fronteira do mundo livre, outra vez!).

A nata da elite argumenta que é necessário despertar nos jovens o sentido do dever que os torne capazes de levantar “hoje de novo o esplendor de Portugal”.

Curiosamente e, aparentemente, em contraciclo, o supremo magistrado da nação e comandante supremo das FA’s faz do seu múnus a publicitação exaustiva de que o esplendor de Portugal está mais que assegurado não obstante o SMO ter acabado há catorze anos

Em todo o caso, quer no SMO quer no Serviço Cívico, que lhe serviria de complemento, recupera-se o papel insubstituível da Hierarquia na construção da sociedade actual e futura, travando a corrida vertiginosa para o caos que ameaça a(s) nossa(s) sociedade(s). São, além disso, instrumentos adequados para ocupar a juventude “nem-nem”.

A discussão já tem barbas e o SMO foi à vida com muita pena do PCP e do CDS e uma certa nostalgia dos PS e do PSD que não conseguiram travar o ímpeto hedonista das suas juventudes.

Foi pena porque é na guerra que se revela o que de melhor existe na alma humana, tanto sacrifício e tantos heróis, embora a chacina e o massacre tão necessários para a vitória, sejam mal usados pelos repórteres, prejudicando o esforço de guerra como aconteceu na guerra do Vietname e se traduziu no caos social e na violência contra as instituições por parte de estudantes e demais ignorantes e, finalmente, na derrota sem espinhas do mais forte exército do mundo.

Desde o fim do SMO que as Forças Armadas portuguesas perderam 20% dos efectivos numa demonstração cabal de que isto não pode ficar dependente da oferta de profissionais e voluntários.

Precisamos de recrutas para respeitar os nossos compromissos com a NATO comprando armas, e este é também um dever de solidariedade para com os trabalhadores das fábricas de armamento senão ficam sem emprego.

se a NATO tem a nobre missão de defender solidariamente qualquer dos seus membros quando ameaçado, o exército europeu destina-se a substituir a NATO, a enfrentar os EUA com ou sem Trump ou então a aventuras militares próprias em África e no Médio Oriente?

A urgente necessidade de um exército europeu exige argumentos para o integrar numa posição de destaque. E isso só será possível se apresentarmos uma tropa em condições. Entretanto fica uma pergunta no ar: se a NATO tem a nobre missão de defender solidariamente qualquer dos seus membros quando ameaçado, o exército europeu destina-se a substituir a NATO, a enfrentar os EUA com ou sem Trump ou então a aventuras militares próprias em África e no Médio Oriente?

Sabe-se que, apesar das guerras em curso e de outras certamente em promoção, as indústrias de armamento europeias nomeadamente de França, Alemanha, Reino Unido e demais amantes da paz atravessam uma crise: o complexo Industrial Militar dos EUA vai secando tudo em volta. Com o exército europeu o negócio fica em casa.

Trata-se de questões complexas que exigem respostas livres de eleitoralismos e de populismos (o populismo está a tornar-se um termo bivalente: serve para branquear os novos fascismos por um lado; e, por outro, para marginalizar propostas que confrontem as políticas de direita, liberais e social-democratas chamadas)

O aumento da despesa com a NATO, que Trump exige e Mário Centeno não enjeita, deve ser confrontado com a alternativa de formar e reforçar uma estrutura de defesa civil a sério e não atamancada com quem não tem aptidão, faz falta nas suas missões próprias e cujo empenhamento na defesa civil só deve ser feito em situações extremas; refiro-me à GNR a estourar pelas costuras e às Forças Armadas que afinal parece não terem falta de efectivos.

Sobre esta questão já me pronunciei bastas vezes e a última delas em sede institucional, no debate promovido pela Comissão de Defesa da AR a 28 de Março deste ano.

Entretanto, o próprio Bloco, talvez por achar que enquanto a floresta não estiver à maneira e o interior cheio de vida urbana e rural não valia a pena tomar a iniciativa política nesta matéria, não ligou nenhuma a propostas que desde há bem mais de dez anos teriam tornado as respostas atabalhoadas e sem estruturação sólida a que assistimos, irrisórias e supérfluas.

O Crime de Guerra como prática rentável

Talvez seja conveniente interrogarmo-nos sobre a pátria que as FA’s, com menos 20% ou mais 20% de efectivos, defendem e com que aliados andamos metidos. Se a Pátria não se discute como diria o Salazar, estamos tramados. Se temos que aceitar os amigos que os donos da Pátria ou, melhor dito, disto tudo, escolhem tramados estamos.

Ninguém tem dúvidas, creio, de que quem continua a mandar, do ponto de vista da guerra infinita, são os EUA e de que os aliados não passam de débeis serventuários que sempre contaram com a NATO e as suas provocações e intervenções militares para assegurar uma unidade europeia que de outra forma, e mesmo assim, são incapazes de manter tripudiando por sobre os interesses dos cidadãos e dos povos.

O papel dos EUA na Europa, na luta contra a avalanche assassina do nazismo, em apoio ainda que tardio à resistência britânica e ao sacrifício, primeiro, e à ofensiva demolidora do Exército Vermelho, depois, e a própria resistência dos maquis, granjeou-lhes indubitavelmente admiração e respeito reforçados pela reconstrução possibilitada pelo plano Marshall.

Com a Europa dos fascistas arrependidos, dos democratas-cristãos e social-democratas a seus pés, faltava amarrá-la sem apelo através de uma estrutura militar permanente sem precedentes, a NATO, formada em Abril de 1949 (o Pacto de Varsóvia, mais contraponto, na gestão da geoestratégia de então, do que inimigo), garantindo-lhes completamente a hegemonia que nem as convergências políticas, sempre contingentes, nem a entusiástica adopção da american way of life pelos europeus poderiam assegurar.

Foi essa também a primeira pedra da guerra fria que tantos lucros haveria de dar ao sinistro complexo industrial-militar cujo poder sem paralelo e por sobre o poder político, foi denunciado pelo próprio general Eisenhower* depois de o ter implementado como presidente, nomeadamente no armamento nuclear.

Claro que o cesto já estava roto. Mas é com a crise de Baía dos Porcos e logo a seguir com a guerra do Vietname que o peso do complexo Industrial Militar sobre as administrações norte-americanas se traduz no completo aviltamento destas, em que a fraude e a mentira se tornam a regra nas questões de política externa e, obviamente, interna.

Os “Pentagono Papers” revelados já perto do fim da guerra do Vietname mostram como os três presidentes norte-americanos nela implicados, Kennedy que iniciou a interferência, chamemos-lhe assim, a que se seguiu a intervenção com Lyndon B. Johnson e Nixon, foram responsáveis conscientes pela escalada bárbara e assassina da guerra (dos 500 mil soldados empenhados pelos EUA 58 mil foram mortos mais cerca de 4 milhões de vietnamitas, cambojanos e laocianos a que há que somar a destruição dos campos com o famoso agente laranja) sabendo e reconhecendo ao mais alto nível, a cada passo, que de nada serviria tal hecatombe: era só contar mortos e gastar armamento e munições!

A única explicação plausível para tal estupidez de três sucessivos presidentes, mentindo sistematicamente ao povo norte-americano que estava a ser sacrificado em vão, quer sobre as expectativas quer sobre o reforço constante dos meios materiais e humanos, só pode ser encontrada nas exigências do complexo Industrial Militar.

Segue-se a formação da terrorista Al Qaeda sob os auspícios e com o apoio dos EUA para substituir (havia que esperar até ao 911) o ocupante soviético no Afeganistão e agora segundo Trump para dar lugar aos mercenários da Blackwater.

Avança então a operação Tempestade no Deserto lançada pelo pai Bush, que dizimou centenas de milhar de iraquianos directa e indirectamente sob os efeitos do urânio empobrecido e das bombas de fragmentação, tão proibidos como o gás , depois de ter dado discreto aval à invasão do Kuwait por Saddam Hussein. Tal serviu de pretexto para mais uma generosa distribuição de dividendos pelas empresas do complexo Industrial Militar

Seguiu-se a pouco e muito mal esclarecida catástrofe das Twin Towers em 11 de Setembro de 2001 – Rumsfeld tinha proclamado a necessidade de um “novo Pearl Harbour” - que serviu de pretexto para a invasão do Afeganistão pelo filho Bush, uma família predestinada.

Chega o momento para o filho Bush lançar a maior e mais escandalosa das mentiras, denunciada aliás, e confirmada depois, por todas as agências internacionais assegurando que Saddam mantinha a posse de armas de destruição maciça. Tal foi o pretexto bem preparado para a invasão brutal e dizimadora do Iraque, a operação Choque e Pavor, a que poderíamos chamar do fósforo branco, a grande arma contra as populações “inimigas”, ardendo lentamente colado à pele.

Da destruição das bases culturais, científicas e sociais, as mais avançadas do Médio Oriente, incluindo a estrutura militar, irradiou toda a jihad terrorista que hoje tanto preocupa os democratas à brava, mas dando sempre pretexto para novas intervenções humanitárias e de estabilização, nomeadamente em África. Neste crime de guerra (https://www.esquerda.net/dossier/invasao-do-iraque-crime-de-guerra/36297) tivemos a participação de Paulo Portas que garantiu ter visto todas as provas bushianas pelo periscópio de um dos seus submarinos e de Durão Barroso, o elegante Cherne, dois prestigiosos governantes e, mais ainda, o entusiástico apoio de grandes intelectuais da altura como José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, o grande e já falecido filósofo Fernando Gil de parceria com Paulo Tunhas, Pacheco Pereira, etc.

A guerra das civilizações estava aí e ou éramos nós ou eles!

Tal justificou, perante o olhar bovino dos aliados europeus, por parte dos EUA, bastião da democracia e das liberdades, as violações descaradas dos acordos de Genebra, as torturas mais aviltantes e desumanas, como em Abu Graib, a prisão de Guantanamo, o desprezo absoluto pelos direitos humanos dos prisioneiros e das populações, de que a razia de Faluja com fósforo branco ficou na história apesar de a quererem apagar.

As Primaveras Árabes foram, depois, o pretexto para a destruição e tentativa de esfacelamento da Síria e para mais uma intervenção criminosa por parte da França apoiada pela NATO, destruindo os equilíbrios que Kadhafi, ex-amigo e corruptor de Sarkozy, assegurava na Líbia há décadas

Este um fugaz retrato dos que mandam na NATO e, já agora, na Europa. Dá-nos uma pálida imagem dos nossos aliados e protectores e mostra para onde, em última instância, estão destinadas as verbas que os nossos governantes querem despender no SMO e no reforço das FA’s. E que interesses as nossas FA’s, os nossos jovens smo’s ou profissionais ou voluntários serão chamadas a defender.

A carne para canhão é quase de borla e o repasto é lauto.

Embora tal não esteja explicitado nas suas cartas de intenções, está nas mesas de planeamento, nas ordens de operações e, ainda, na bolsa de Wall Street: todos os crimes são parte do esforço de guerra e como tal não há que condená-los, há que cometê-los, as medalhas são feitas para os heróis e os dividendos para quem sabe investir com os dinheiros do Estado.

É, verdadeiramente, para colocar ao dispor de responsáveis contumazes por crimes de guerra e contra a humanidade, e ainda cúmplices do genocídio do povo palestiniano, que os governantes de Portugal mais a elite liberal, social-democrata e mais reaccionária, agora diz-se conservadora, apelam e, em última instância, querem impor, à juventude que alinhe na barbárie civilizada, de tecnologia de ponta.


* O Complexo Industrial Militar dos EUA é uma articulação sofisticada entre os grandes grupos económicos e a estrutura militar através da qual estes grupos crescem e engordam à custa do erário público em torno da indústria do armamento.
No seu discurso de despedida da presidência, Eisenhower referiu-se-lhes nestes termos: “Nas esferas da governação, devemos proteger-nos contra a aquisição de uma influência indesejada, procurada ou não, por parte do complexo industrial-militar. Existe, e permanecerá, o potencial para um surto desastroso de poder mal concentrado. Não devemos nunca permitir que o peso desta conjunção ameace as nossas liberdades ou o processo democrático. Não devemos partir do pressuposto de que tudo esteja garantido”.

Sobre o/a autor(a)

Coronel na reforma. Militar de Abril. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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