You are here

Era uma vez um pirata honrado

Acha mesmo que este mundo em que Trump e Putin se aliam e em que tudo o que era sólido se dissolve está assim tão longe de nós?

Era uma vez um pirata honrado, uma bruxa formosa e um lobito bom, que era maltratado por todos os cordeiros, quando Paco Ibañez cantava este mundo ao contrário em versos de Goytisolo. Lembra-se dele? A recente cimeira de Helsínquia foi como este mundo fantasioso, em que dois piratas não tão honrados se encontram para prosseguir a sua corrida comum. Já tudo se sabe sobre o que trataram e sobre a vitória estrepitosa de Vladimir Putin ao levar Donald Trump a admitir que confiava nas garantias do Presidente russo sobre a não interferência nas eleições norte-americanas. Traidor, disse-se nos EUA, e mesmo entre os apoiantes do Presidente houve algum incómodo por causa desta cedência pacóvia. É o mundo ao contrário, mas porque é que dois piratas não haveriam de acreditar nas fábulas um do outro? Ora, levemo-los a sério e imaginemos então, só por um momento, como seria o mundo se fosse ao invés do que nos dizem e prometem.

Trump ganharia a sua reeleição, adorado pelos seus apoiantes de uma direita radicalizada no ódio imperial aos outros povos, iluminada por inspirações religiosas e prometendo mobilizar as energias militares e o controlo político para criar um mundo temente a Washington, submetendo aliados e apoiando as investidas dos empresários que se escudam no Presidente agente económico.

Trump e Putin dividiriam o mundo em zonas de influência, deixando ao primeiro as mãos livres para um confronto com a China, numa guerra comercial eternizada por sanções e contrassanções. No meio, as instituições da globalização liberal seriam enfraquecidas, a Organização Mundial do Comércio porque não pode ser, a ONU porque é um embaraço. Quanto à NATO, não se exagere, bastaria que continue a assumir o dever estatutário de cumprir as ordens do Pentágono.

Neste mundo ao contrário, a União Europeia poderia desfazer-se por dentro, como vai acontecendo agora à vista de toda a gente. Orban conseguiria aliar-se a Salvini e à CSU da Alemanha e constituir a Internacional Populista, o tradicional Partido Popular Europeu perderia grande parte da sua força na eleição europeia e, se se conservar ainda na posição de primeiro partido, será porque as outras famílias dominantes se esfarelaram em múltiplas seitas. Macron leva uma parte dos liberais e dos socialistas, o Partido Socialista Europeu soçobra, e a esquerda, que se reforça, não tem uma proposta unificada. O Leste está mais próximo de Putin do que de Bruxelas e, quando a crise financeira sacudir a Europa, o euro volta a clamar por troikas.

Acontece o impossível, voltam os fantasmas do passado e as caricaturas tomam o poder. Mas acha mesmo que este mundo em que Trump e Putin se aliam e em que tudo o que era sólido se dissolve está assim tão longe de nós?

Artigo publicado no “Expresso” de 21 de julho de 2018

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
Comentários (1)