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O Porto do Porto não é no Porto

Matosinhos reencontrou no mar a sua vocação agora está confrontado com interesses económicos que que mais uma vez lhe querem mudar o rumo, mudar a paisagem, mudar o destino.

O grande naufrágio ocorrido em 29 de março de 1852 foi o alerta para o facto de que o porto instalado no Douro era perigoso de mais e que já não correspondia às necessidades, apesar dos paliativos usados, pela burguesia do Porto para retardar o inevitável. A Ideia de aproveitamento da foz do rio Leça começou a ganhar forma, inicialmente como porto de abrigo ancoradouro seguro para as embarcações que aguardariam aí a melhor oportunidade para entrar na barra do Douro. Posteriormente adaptado a porto comercial com obras que se arrastariam durante anos. Com o objetivo de melhoras as condições de segurança das embarcações opta-se pelo crescimento para dentro abrindo-se no próprio estuário do Leça e fazendo desaparecer a antigas margens de Matosinhos e de Leça da Palmeira.

Passando desta forma a ser o porto do Porto em Matosinhos.

O Estado Novo fez das obras do molhe sul, construção da doca 1 e construção na entrada do porto de um quebra-mar, obras de projeção da imagem de estado moderno que vai ser mostrada no filme de propaganda “A Revolução de Maio “de António Lopes Ribeiro. As preocupações ambientais ainda não se levantavam, património cultural, era uma ideia que ainda longe de ser elaborada e o que entendiam, o que perdiam ou ganhavam as populações era questão que tinha uma importância pequena perante a máquina de propaganda do Estado Novo.

Foram necessários vários anos para que todo o sistema ambiental e social se reequilibra-se em torno da nova realidade, entre os focos de poluição da ribeira da Reguinha a sul, rio Leça a norte e dos navios que demandam o porto. Mas ganhou um novo rosto com um cais de cruzeiros, com os desportos ligados ao mar e com a crescente vaga de turismo que por aqui encontram condições únicas de ondas, areal e serviços. Hoje somos uma terra de “horizonte e mar” com uma economia virada para o mar e local escolhido de residência de muitos que se identificam com esta forma de estar.

Mas, como foi referido na sessão de esclarecimento “Acessibilidades Marítimas do Porto de Leixões” e “Prolongamento do Quebra-Mar Exterior do Porto de Leixões” de 23 de maio no Auditório Infante Dom Henrique da APDL, estamos de novo com um problema: o porto já não responde aos desafios do século XIX, no que respeita ao transporte marítimo de mercadorias.

Tal como o porto do Douro, embora por motivos diferentes, parece que nos aproximamos do fim de um ciclo, os barcos são cada vez maiores e o porto não tem mais para onde crescer para dentro e para fora a solução proposta, na senda do que sucedeu com o porto do rio Douro de prolongamento de algo que sabemos que não vai ter futuro a longo prazo, é o prolongamento do quebra-mar, que tal como foi dito na referida sessão de esclarecimento apenas vai adiar a já pressentida necessidade de um novo porto comercial.

Estamos no século XIX num regime democrático, numa época em que as preocupações ambientais são uma realidade e o que é proposto pelo estado central colide com os interesses municipais, apresentar contrapartidas que mitiguem o impacto causado com o aumento do quebra-mar impõe-se, as soluções podem passar por recifes artificiais multifuncionais ou outros meios que garantam a renovação das águas na totalidade da praia e a consequente manutenção das atividades nelas praticadas bem como o equilíbrio ambiental.

Abriu-se um pedido de consulta pública e foi feita uma sessão de esclarecimento, mas a sensibilidade demonstrada pelos envolvidos e a abertura à busca de soluções que preservem a praia, foi pouca, mais parecendo estarmos perante um facto consumado.

Da mesma forma que um dia o porto do Porto deixou de ser no Porto o que se prevê é que dentro de duas décadas o porto comercial do Porto também não seja em Matosinhos, mas de permeio há a pretensão do governo central em fazer uma obra que vai acabar com a praia tal como a conhecemos e consequentemente com a economia local sem preocupações de maior, sem propostas de redução do impacte que vai provocar, à semelhança do que foi feito noutros tempos.

Matosinhos reencontrou no mar a sua vocação agora está confrontado com interesses económicos que que mais uma vez lhe querem mudar o rumo, mudar a paisagem, mudar o destino.

Sobre o/a autor(a)

Artista plástica, ativista e membro da distrital do Porto do Bloco de Esquerda
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