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O espelho italiano

A Itália entregou-se a um governo formado pela extrema-direita xenófoba e populistas anti-imigração. A Europa chora lágrimas de crocodilo quando reage pesarosa à mudança política em Itália.

O presidente de Itália encarregou Giuseppe Conte de formar governo, seguindo a indicação dos líderes partidários do Movimento 5 Estrelas e da Liga Norte. A decisão, anunciada nesta quarta-feira, conclui um processo que se arrastou desde o impasse pós-eleitoral de 4 de março. Agora, Conte apresentará como programa o texto que resultou da negociação entre os dois partidos e indicará para membros de governo uma equipa que também terá esse cunho partidário.

Como é fácil de antever, Conte - um professor de Direito Civil e Administrativo sem qualquer participação política anterior que lhe seja conhecida - será um fantoche nas mãos de Luigi Di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas (M5E), e de Matteo Salvini, líder da Liga Norte (LN). A Itália entregou-se, portanto, a um governo formado pela extrema-direita xenófoba e populistas anti-imigração.

O choque e o pavor ecoaram pelos corredores europeus quando se conheceram os resultados das eleições italianas. Mas, na verdade, as sondagens há muito que indicavam as tendências que vieram a dar a vitória ao M5E e a reforçar a LN. Os sinais estavam todos lá. A Europa chora lágrimas de crocodilo quando reage pesarosa à mudança política em Itália.

Por um lado, a situação em Itália é apenas o último episódio de uma viragem política em curso. Antes das eleições italianas, já a extrema-direita se tinha instalado no governo da Áustria (onde detém três ministérios-chave); já tinha alcançado 92 lugares do Bundestag, o Parlamento alemão, e influenciado uma viragem política da CSU (o partido de Merkel) - na Baviera, para evitar o ascenso da AfD nas eleições regionais de outubro, a CSU está já a implementar o programa da extrema--direita; a campanha xenófoba e anti-islâmica reforçou-se nos processos eleitorais da Holanda e da França; o chamado grupo de Visegrado, liderado pelos governos da Polónia e da Hungria, há muito que implementa políticas anti--imigração e antirrefugiados, baseado numa propaganda nacionalista e ultraconservadora.

Por outro lado, as políticas europeias têm sido o catalisador do crescimento de movimentos populistas e de extrema-direita. A Itália é um bom exemplo disso. A política económica vive oprimida pelas regras do tratados europeus, o que condenou a Itália a quase 20 anos de estagnação. A falta de resposta europeia à crise das dívidas soberanas fez disparar a dívida pública italiana. As regras da zona euro tornaram-se uma camisa de forças que impede o crescimento económico italiano. O sistema bancário foi mais um dos elos fracos da crise financeira internacional e transformou-se num peso morto na economia. O desprezo que as instâncias europeias têm sobre a democracia ficou visível no número de governos tecnocráticos que foram impostos aos italianos. A hipocrisia e a falta de solidariedade entre os países europeus é inequívoca na má resposta à crise de refugiados que se tornou debate central em Itália.

A crise financeira mundial ajudou ao discurso xenófobo e anti-imigração. Perante a crise económica, que levou à destruição de milhões de postos de trabalho, foi fácil para a extrema-direita fomentar o discurso contra os imigrantes de vinham roubar empregos, direitos e riqueza.

A política militarista foi outro erro europeu. A Europa foi submissa aos Estados Unidos da América e ajudou na política da guerra para o Médio Oriente. A cimeira das Lajes colocou Portugal nessa triste fotografia. A instabilidade e a guerra nessa região do globo levou à maior crise de refugiados do século. É o medo dessa mesma crise de refugiados que a extrema-direita instrumentaliza para ganhar apoio popular e vencer eleições.

Seria de esperar que a elite europeia aprendesse com os seus erros? Esta é uma pergunta mal feita. Só as circunstâncias criadas é que permitiram um reforço do autoritarismo europeu e do domínio do diretório franco-alemão, que era a vontade da elite europeia. Por isso foi necessário vergar o governo grego, para que não existisse nenhuma alternativa à política de austeridade e matar à nascença qualquer sentimento de esperança. Por isso foram criados brutais programas de austeridade, que privatizaram empresas públicas, terraplenaram direitos dos trabalhadores e comprimiram salários e rendimentos do trabalho.

Quem semeia ventos colhe tempestades. A política europeia da austeridade, chapéu de ataques aos direitos dos trabalhadores e aos serviços públicos europeus, tem no crescimento da extrema-direita o reverso da sua medalha. A extrema-direita não é antissistema, é o resultado deste sistema austeritário europeu. Para combater a extrema-direita temos de combater as bases da atual política europeia.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 24 de maio de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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