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Urbanismo em Aveiro: a coerência da incoerência

O atual consenso urbanístico pede menos carros, mais espaço partilhado, mais zonas permeáveis, Aveiro propõe-se ao oposto.

As alterações urbanísticas em preparação para o centro de Aveiro não pecam apenas pela falta de participação e pelo anacronismo das suas soluções, mas também pelo seu principal objetivo: espremer o território para garantir grandes dividendos ao mesmo tempo que tornam a cidade em território exclusivo.

A construção de um estacionamento no Rossio, a confirmar-se, será um erro grosseiro. Os restantes parques no centro estão parcialmente vazios e mesmo fechados à noite. A ponte São João foi reconstruída sem ter em conta se terá ou não fluxo automóvel para um novo estacionamento. O atual consenso urbanístico pede menos carros, mais espaço partilhado, mais zonas permeáveis, Aveiro propõe-se ao oposto.

É tudo incoerente, mas dizer que a obra avança só se houver interesse de privados é abrir o jogo: é para essa rentabilidade que a obra servirá e será sua a decisão.

A expansão do Glicínias acentua o modelo do centro comercial onde se vai de carro fazer as compras do dia-a-dia. Para responder a esse acréscimo de fluxo automóvel, essa parte da cidade mudará. A EN109 será alargada, o trânsito acelerado e o fluxo pedonal separado.

Trata-se de um plano com 20 anos, como se em duas décadas os conceitos e os usos não tivessem mudado. Como se não existissem rotundas de abrandamento antes e depois desta zona, como se a autarquia não tivesse declarado recentemente que no novo PDM a cidade estará em ambos os lados da EN109 que agora se separaram ainda mais com esta obra. É tudo incoerente, mas a cidade muda para servir o hiper.

A nascente da estação de caminhos-de-ferro nasceu um hospital privado que pediu um piso a mais que o previsto no PDM. A autarquia decidiu oferecer. Na Avenida há um prédio embargado com um piso a mais sem qualquer acção da Câmara e até se tem falado na legalização desse piso ilegal.

É incoerente ter mecanismos de ordenamento do território que mudam ao mínimo interesse é certo, mas isso garante uma maior rentabilidade.

É incoerente o (re)arranjo do espaço público e não mexer no edificado de zonas com bastantes prédios devolutos e degradados, que é aliás o principal problema. A Avenida e outras zonas centrais terão cara lavada, mas sem as correspondentes políticas públicas de habitação. E, onde há este desencontro de investimento público no espaço coletivo e nenhum no edificado, já se sabe o que acontece: pelas "regras do mercado", os moradores com menos recursos são empurrados para fora das suas casas e para a periferia. O território da cidade fica à mercê da especulação imobiliária.

É este o urbanismo realmente em curso em Aveiro. Uma política de direita, na naturalização da ideia de que a cidade não é para todos, de que a cidade se organiza em função dos interesses de alguns contra os direitos de todos. É essa a coerência de obras que parecem incoerentes: todas estão alinhadas com essa política de exclusão, todas servem a predação do território de todos. É também na solidariedade, no direito à habitação e na criação de espaços partilhados que se criará a alternativa em Aveiro.

Artigo publicado em Notícias de Aveiro a 7 de maio de 2018

Sobre o/a autor(a)

Biólogo. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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