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A vertigem do abismo

O ex-ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, empenha-se a divulgar uma lista transnacional para o Parlamento Europeu. Quando rejeitamos fazer companhia a Varoufakis nessa candidatura, em maio de 2019, temos razões sérias.

O ex-ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, empenha-se a divulgar uma lista transnacional para o Parlamento Europeu, cujas eleições estão previstas para maio de 2019. Diga-se que as listas transnacionais foram reprovadas no Parlamento Europeu e portanto as listas são apresentadas em cada país e apuram-se deputados e deputadas pelos votos desse país, como habitualmente. Diga-se também que a lista transnacional de Varoufakis é assim um estado de espírito, porventura uma ideia instrumental, mas não pode recolher votos em vários estados para eleger representantes. Não há listas transnacionais,portanto. Convém esclarecer este ponto para dissipar engodos ou ilusões.

O Bloco de Esquerda, na Assembleia da República e no Parlamento Europeu esteve contra a existência das listas transnacionais porque a sua dinâmica levaria a uma ainda maior hegemonia de eleitos dos estados mais populosos, que ocupariam os primeiros lugares de tais listas beneficiando do facto de aí serem mais conhecidos e poderem ter mais votos. Esta lógica simples de não prejudicar a já débil representação dos países com menos população, como é o caso de Portugal, não abana,antes confirma aquilo que erradamente se reclama como "internacionalismo" por Varoufakis.

Clarificada a circunstância, convém talvez atender aos conteúdos da proposta da "Primavera Europeia" que sai de uma reunião em Lisboa, promovida por esse movimento. Segundo os promotores, trata-se de atingir dois objetivos até 2025: um "new deal" económico e ambiental e um processo constituinte pan-europeu, assistindo à refundação da União Europeia. Os próprios consideram como seu inimigo a tecnocracia europeia, responsável pela austeridade tóxica. Cabe perguntar como tencionam atingir esses objetivos. A relação de forças nunca foi tão desfavorável às forças do centro-esquerda e da esquerda. Prevê-se mesmo uma hecatombe nas próximas eleições europeias. Quem serão os negociadores desse “new deal”, os mesmos que vão baixar mais uma vez o Orçamento Europeu? Qual será a entidade que abre um processo constituinte, o Conselho Europeu que aferrolha os tratados? Não esperam seguramente conseguir uma maioria eleitoral quando o melhor score do movimento se queda por 5% de um dos partidos integrantes na Dinamarca?!

Dir-se-á que os projetos devem triunfar sobre a relação de forças, essa é a atitude progressiva e revolucionária. Mas, o problema é que querem substituir a resistência no âmbito dos países, que ainda é a reserva democrática, por uma aventura absurda e sem sentido. Na prática a resistência aos Centenos, que Varoufakis deplora e bem, faz-se em lado nenhum ou virtualmente na web. Isso é o abismo. A renacionalização das políticas, designadamente as fiscais, monetárias, concorrenciais, etc, enquanto não há milagres que devolvam a igualdade aos estados e o predomínio do social sobre os mercados, é a única posição credível e ancorada numa relação de forças menos desfavorável e mais permeável à intervenção popular.

Um dos defeitos de fabrico desta visão varoufakiana é a ausência de uma análise dos interesses económico-sociais. A "tecnocracia" defende quem? Os interesses dos grupos financeiros e económicos, não se trata de uma política de gestão estúpida a ser substituída por uma gestão racional de bem comum. A inteligência do comando que nos domina é o ganho do atual modelo capitalista europeu. Ou seja, para alterar o quadro europeu carecemos da luta anticapitalista que se faz ao nível dos países. Varoufakis foi vítima enquanto ministro do Syriza da ilusão nas instituições europeias e na esperança de uma mãozinha de Hollande. Agora pior, nem há ilusões nas troikas e quase já nem há social-democracia. Agradecemos, pela negativa, o exemplo dessa estratégia à Syriza, todos aprendemos e percebemos o desastre da falta de confrontação com o governo da Alemanha, o que conduziu diretamente à capitulação de Tsipras. O que foi uma tragédia não pode reaparecer agora como comédia bem disposta. Mesmo que seja primavera.

Quando rejeitamos fazer companhia a Varoufakis nessa candidatura, em maio de 2019, temos razões sérias. Não criticamos a sua iniciativa por fragmentar o que quer que seja, é o seu legítimo direito. Esperemos que o seus prosélitos não encontrem psicodramas para justificar o que é banal.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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