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É a democracia, estúpido

Um partido revolucionário tem que viver não só das ideias, das propostas, dos programas, muitas vezes falíveis, mas essencialmente da forma como lá se chega.

Foi o Movimento dos Capitães que fez o golpe vitorioso contra o fascismo e desarticulou as Forças Armadas invertendo a sua hierarquia e criando condições para que os soldados deixassem de ser números, com nome, vamos lá; que se esboçasse a democracia nos quartéis e que o povo se lançasse à conquista da justiça social através da luta política sem donos.

O MFA, fórmula encontrada pelos que mais adiante iriam fazer ou contemporizar com o 25 de Novembro, foi a tentativa de normalizar e institucionalizar o controlo do movimento popular revolucionário. Pelos militares, pelos partidos do sistema, à esquerda,à direita e ao centro e por todos os que não queriam ir além de um 28 de Maio democrático…

A desarticulação da hierarquia militar assustou toda a burguesia nacional e estrangeira que sempre viu nela, mais ainda do que a chamada defesa da Pátria, o último reduto do seu poder.

O fim da guerra colonial foi o corolário esperado do 25 de Abril da mesma forma que a guerra, longa de treze anos, fora a sua causa directa.

À independência das colónias o actual regime chama descolonização. Para iludir a derrota insofismável das FA’s face à luta sangrenta dos povos colonizados vitoriosos, que não encaixa em tal designação, vão proclamando sem se envergonharem que a própria guerra fez parte desse tal processo de descolonização que, portanto, teria sido encerrado com os acordos firmados com os movimentos de libertação.

As FA’s gloriosas e símbolo perene da vitalidade da pátria não poderiam destoar da gesta camoniana, nem do heroísmo que lhes é imputado no vergonhoso desastre da participação na chacina da primeira guerra mundial que apenas teve como resultado decente e mundialmente relevante a vitória bolchevique da Revolução de Outubro.

 

Com o fim da guerra colonial, o povo na rua e a Revolução de Outubro no coração e no pensamento, as forças políticas da esquerda, não social-democrata tipo PS, pensaram ter os instrumentos necessários para levarem o povo à vitória: soldados prontos para acompanharem a revolução popular e teoria de sobra para a orientarem.

O nosso PREC entusiasmou os radicais e revolucionários europeus que vieram para cá aprender e os sul-americanos que vieram para cá ensinar.

A festa era grande, o MFA lá ia marchando ao som da sua marcha, a única marcha militar que celebrava a paz e a luta popular. Até que a intensidade da luta e as exigências democráticas e de poder popular deram cabo da formação fosse em linha ou em bicha de pirilau.

Os restauradores da hierarquia que muito a contragosto aceitavam a ineficaz palavra de ordem unidade Povo-MFA, assediados pelo inefável Carlluci, que também veio para cá ensinar, e pelo “monamiMiterrand” e outra malandragem que definia os grandes valores europeus, organizaram não só o golpe contra-revolucionário como a retaliação aos militares comprometidos com a revolução, retaliação essa que superou em toda a linha o tratamento que foi dado aos políticos fascistas e militares que os suportaram e, pasme-se, aos próprios pides como foi o caso da recusa a Salgueiro Maia da pensão por altos serviços que foi concedida a um pide pelo Cavaco.

As forças de esquerda – revolucionárias ou conservadoras – esqueceram-se, cada uma à sua maneira, que tinha havido uma segunda guerra mundial, que a face da Europa mudara radicalmente, que a american way of life tomara conta dos europeus, que o plano Marshall dera um novo fôlego ao capitalismo, que a social-democracia ganhara na política e que os trabalhadores se iam adequando à democracia alimentada pela boa disposição material e ideológica do patronato com condições para aceitar algumas nacionalizações, para instituir um estado social, para acordos colectivos em que as migalhas iam chegando para aumentar o poder de compra razoavelmente.

Esqueceram ainda - tanto que se pode dizer que nunca se lhe referiram apesar de tantos exilados e desertores terem regressado de França integrando as forças revolucionárias portuguesas - o Maio de 68, a primeira revolução de carácter mundial, também ele saído da luta cidadã contra as guerras coloniais: Indochina, Argélia e Vietnam. O “É proibido proibir” e “Somos realistas queremos o impossível” não se coadunava lá muito bem com a necessidade de vanguarda-controlo, fosse isso o que fosse, do movimento popular que as esquerdas no PREC consideravam exigência programática e revolucionária.

A direita, os liberais e a dita social-democracia tinham o olho submisso na Europa e nos EUA para o apoio contra o PREC. Também as esquerdas revolucionárias deviam ter tido o olho na Europa e nos EUA para traçarem a estratégia adequada aos interesses populares. O apego ao dogma, mais estalinista, mais trotskista ou mais maoísta não as deixou perceber uma situação que, contra as aparências, lhes era totalmente desfavorável.

E, ainda, que a democracia burguesa e o estado de direito democrático eram conquistas adquiridas pela própria luta do proletariado e não concessões da burguesia. Teria sido necessário perceber que a luta que se impunha era a de levar o estado de direito até aos seus limites exigindo sempre mais democracia impondo o peso das reivindicações populares manifestadas na luta.

Hoje, o Bloco de Esquerda porque percebeu ou intuiu isso, melhor que tenha percebido, é a força de esquerda que está em condições para dar seguimento à esperança do 25 de Abril. Desde que saiba responder a muitas, claro, mas, principalmente, à seguinte questão: porque é que todas as revoluções inicialmente vitoriosas, fracassaram? Não me venham dizer que foi o imperialismo porque, esse, já faz parte do enunciado da pergunta.

Pois é: é a democracia. Um partido revolucionário, para dar confiança quanto à luta pela democracia que é o terreno da luta pela igualdade, tem que viver não só das ideias, das propostas, dos programas, muitas vezes falíveis, mas essencialmente da forma como lá se chega: a democracia interna materializada na ampla participação e no respeito de cada opinião e de cada emitente (fica menos pessoalizado assim…) de opinião. E que a crítica, fundamentada no conhecimento, deve ser o elemento central de toda a actividade política e partidária.

O avô Marx fez da crítica o principal pilar do seu pensamento.

Bom 25 de Abril

Artigo publicado em viaesquerda.pt

Sobre o/a autor(a)

Coronel na reforma. Militar de Abril. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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