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Degradação continuada do Transporte Fluvial

Apanhar o barco tornou-se uma roleta, horários não existem, nunca se sabe como estará o serviço. Com os temporais também foi posta em causa a segurança.

Antes da construção da Ponte sobre o Tejo, o crescimento populacional da Margem Sul do Tejo baseou-se no transporte fluvial. Trafaria, Porto Brandão, Cacilhas, Seixal, Barreiro, Montijo, Alcochete todas tinham carreiras fluviais para Lisboa no Terreiro do Paço, Cais do Sodré ou Belém. De Cacilhas havia Ferrys que transportavam carros para o Cais do Sodré e passageiros para o Terreiro do Paço.

A população foi crescendo e, estranhamente, o serviço foi diminuindo. Há muitos anos acabaram os barcos para Alcochete e, mais recentemente, depois de uma tentativa de acabar com a carreira da Trafaria/Porto Brandão – Belém os ferrys passaram de Cacilhas para a Trafaria. Também foi diminuída a frequência de carreiras e o número de barcos ao serviço. De Cacilhas para o Terreiro de Paço e Cais do Sodré havia 8 barcos ao serviço, agora há três (em condições normais). Um dos resultados da redução de carreiras é que hoje a Transtejo tem uma frota que é mais do dobro das necessidades. Tem trinta navios, quando precisa de 10 ou 11 para assegurarem os horários normais, o pior é que a maior parte está parada na Doca 13 da Lisnave, com avarias e sem certificado de navegabilidade.

Entretanto sucederam-se investimentos errados. No Cais do Sodré há um cais desativado (o que permitia o transporte de viaturas); em Cacilhas há um terminal desativado que tem muito melhores condições do que o que está a funcionar. As últimas embarcações a entrar ao serviço, Ferrys que estão ao serviço na Trafaria, são completamente desadequados e avariam-se com frequência.

Há os investimentos que nunca se fizeram, os barcos que asseguram a carreira de Cacilhas (a que tem mais passageiros) têm mais de 35 anos e estão francamente degradados. O Terminal de Cacilhas não tem o mínimo de condições de conforto, além de ter um telhado de amianto sem forro.

O governo Passos Coelho pretendia a privatização e para isso era importante degradar os serviços. Foi a altura em que as manutenções eram esquecidas. Também foi a altura em que os transportes coletivos perderam milhões de passageiros, efeito da redução de oferta e do aumento do desemprego. Os passes também aumentaram e algumas pessoas acabaram excluídas do transporte coletivo.

Uma das promessas do governo de António Costa era o reverter as privatizações já preparadas para os transportes coletivos. Isso foi feito. Também seria de esperar que este governo encetasse um caminho de recuperação dos transportes coletivos e isso nunca aconteceu, pelo contrário estes têm-se vindo a degradar.

A travessia do Tejo é o local em que o descalabro é maior. A maior parte da frota da Transtejo está parada. Falta a manutenção, faltam os certificados de navegabilidade. Não faltaram Mercedes novos para o conselho de administração, nem um novo sistema para a verificação de bilhetes.

As falhas no serviço foram-se acumulando. Quando um navio avaria é substituído por outro retirado de outra carreira. A irregularidade tornou-se normal e as interrupções já nem sequer são avisadas. A estratégia parece ser o tornar normal a redução do serviço, por isso a mobilização é importante.

Os recentes temporais só agravaram a situação, mas são sobretudo uma desculpa para a irregularidade do serviço, já existiam antes. Apanhar o barco tornou-se uma roleta, horários não existem, nunca se sabe como estará o serviço. Com os temporais também foi posta em causa a segurança.

A mobilização começa a surgir. Organizaram-se comissões de utentes de várias carreiras, uma concentração junto à administração conseguiu o reforço rodoviário das carreiras do Montijo. Também foi entregue uma petição na Assembleia da República. Das câmaras municipais por enquanto apenas a do Seixal tomou posição.

Em 2017 o governo tinha prometido a regularização do serviço para 2018, mas não se fez nada. O Conselho de Administração, além de apelos patéticos e disparatados, como a queixa de que todos querem atravessar em hora de ponta, nunca apresentou medidas para a solução da situação. Não sabemos sobre a frota da Transtejo/Soflusa que está parada quantos estão em reparação, embora se suspeite que nada esteja a ser feito. O Ministro e o Governo têm estado mudos, além da longínqua promessa de novos barcos para os quais não consta que sequer esteja a ser preparado concurso.

O descalabro de uma ligação que ao longo de mais de um século tem funcionado regularmente é um grave atentado à vida dos cidadãos da Margem Sul. A situação atual é um incentivo ao uso do transporte individual. É necessário tomar medidas urgentes, reparar navios, substituir os navios da carreira Cacilhas – Cais do Sodré que têm no mínimo 35 anos. A curto prazo pode ser necessário alugar navios no estrangeiro. Para já é preciso que a Transtejo/Soflusa e o governo digam o que pretendem fazer, e o façam já, não daqui a dois ou quatro anos.

O transporte fluvial é fundamental para todos os concelhos da Margem Sul do Tejo, não é desejável que haja mais automóveis a entrar em Lisboa pelas duas pontes. Estamos a falar de cerca de 500 000 habitantes gravemente afetados.  As soluções são urgentes.

 

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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