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Agora, tu és um cavalo de corrida

Os rankings são o subproduto deste sistema anacrónico de avaliação que serve mais para classificar do que melhorar as aprendizagens.

“Estudo conclui que exames nacionais acentuam as desigualdades sociais. São os estudantes das escolas mais bem posicionadas nos rankings que mais procuram centros de explicações.” A notícia é desta semana mas a conclusão não é nova. Tem sido reiterada por várias investigações e até pelo relatório anual do Conselho Nacional de Educação (CNE).

O CNE alerta que 6 em cada 10 alunos de secundário procuram explicações privadas para sobreviver ao exame de matemática. Com um reparo final: “é curioso verificar que o país mais rico, a Noruega, tem a menor percentagem de alunos a recorrer a este tipo de aulas”.

Como todos os parâmetros que habitualmente se comprimem na expressão “sucesso escolar”, os exames têm uma evidente ligação ao contexto sócio-económico dos alunos. O seu primeiro problema é a cegueira. Não querem saber se os alunos são filhos de imigrantes do Vale da Amoreira, se vivem em barracas sem luz na Trafaria ou se estudam num colégio fino. Classificam todos por igual.

Os conservadores acham que isto é uma vantagem. Chamam-lhe “comparabilidade” para disfarçar a seleção social. Como se o sucesso escolar fosse uma espécie de performance desportiva. Por isso afirmei que, em vez de um ministro, a direita gostaria de ter uma selecionador nacional de educação. No fundo é esse o papel dos exames, ignorar o contexto para seriar alunos como numa competição.

“É preciso olhar para o fundo da tabela”, dirão, sem questionar para que serve, afinal, a dita cuja. Se o objetivo fosse melhorar as práticas pedagógicas dos “piores”, Nuno Crato, ex-ministro e fã de rankins, não teria atribuído professores extra como prémio às escolas que tivessem melhores resultados nos exames.

Outro problema dos exames é a ignorância. São incapazes de avaliar quase tudo o que importa na educação. Competências sociais, raciocínio, criatividade, progresso. Oferecem uma fotografia a preto e branco tirada à posteriori, quando é preciso um filme de cores vivas e a 3D, em permanente interação com o presente.

O terceiro problema é o afunilamento. Como num túnel, a luz do sistema de ensino parece ser a média de acesso à universidade, terra de cegos onde os exames são rei. As disciplinas que não são submetidas a exame são desvalorizadas. A evidência de que os trajetos educativos são tão diversos quanto a imprevisibilidade do futuro leva-nos, e bem, a apostar em flexibilizações curriculares e perfis empíricos de ensino e aprendizagem. Vale de pouco quando tudo esbarra no muro dos exames.

Os rankings são o subproduto deste sistema anacrónico de avaliação que serve mais para classificar do que melhorar as aprendizagens. Ao não mudar as políticas educativas o Ministério contribui desgraçadamente para a sua existência, mas é a imprensa quem os constrói e publica. A sua inutilidade pedagógica é proporcional à propaganda gratuita que dá aos colégios privados. Porque esses são sempre os primeiros. Os rankings mostram isso, mas não explicam porquê. Para que servem, então? Há quem se divirta com corridas de cavalos, mas isso não é educação.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 3 de fevereiro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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