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No meio do caminho tinha uma pedra

O bom caminho iniciado em 2015 tem a marca da negociação que se fez à esquerda e que o Partido Socialista teve de aceitar para chegar ao governo. Mas, desde então, há uma vítima das escolhas do governo de António Costa: o investimento público.

O título do artigo é emprestado de um dos poemas que mais gosto de Carlos Drummond de Andrade. Poema simples, daquela simplicidade marcante que só a alguns é desvendada, tão profundo que se torna incontornável.

O poema é construído por variações e repetições do seu título, perpassadas pela ideia de um sentimento inesquecível. No fim do caminho, foi essa pedra que o determinou e demarcou. A pedra simboliza um acontecimento marcante, no caminho que é a nossa vida. O poema aborda e subjuga-se àquela memória que nos domina, avassaladora e incontornável, que ofusca o caminho percorrido e que o define.

Poderá perguntar o motivo para a referência literária, aparentemente deslocada no que se esperaria para este artigo. Pergunta certeira, resposta simples: ao reler recentemente este poema, cresceu em mim a ideia que ele se aplica que nem uma luva à atual situação política do nosso país.

O caminho percorrido desde as últimas eleições legislativas é marcadamente positivo, em particular quando contraposto com o terror da governação de PSD e CDS. De 2015 até agora, acabaram os cortes salariais, existiram dois aumentos extraordinários de pensões, o salário mínimo aumentou em 75 euros mensais, reduziu-se o peso dos impostos nos rendimentos das famílias e a economia está muito melhor e a criar emprego. Isto, claro, só de forma resumida e para exemplificar como a mudança é da noite para o dia face ao ciclo político anterior.

O bom caminho iniciado em 2015 tem a marca da negociação que se fez à esquerda e que o Partido Socialista teve de aceitar para chegar ao governo. Mas, desde então, há uma vítima das escolhas do governo de António Costa: o investimento público. Os números não enganam, Mário Centeno fez o investimento público refém do seu caminho para a chefia do Eurogrupo. A cada festejo sobre as metas do défice agoniza o investimento público e sofrem os serviços públicos.

É por isso que a história a que assistimos no mês passado é um remake da dos anos anteriores. O governo anuncia que conseguiu um défice das contas públicas abaixo do que se tinha comprometido no orçamento e jura que não foi à custa de cativações e da razia do investimento público. Depois, chegam as contas da execução orçamental e conclui-se que, afinal, a realidade nega as afirmações do governo. Com duas temporadas completas desta novela, já não há novidades para apresentar, esgotado que está o argumento.

Em 2017, o défice ficou mais de 2.000 milhões de euros abaixo do previsto. De onde veio esse dinheiro, poder-se-ia perguntar, e a resposta é que foi principalmente de um crescimento económico acima do previsto. Mas, como aconteceu nos anos anteriores, há uma escolha política por detrás deste resultado económico: o governo preteriu o investimento no Serviço Nacional de Saúde (SNS) ou na escola pública para dar prioridade à redução do défice. Nem sequer investiu em infraestruturas. Mais uma vez, governou-se para Bruxelas ver e cidadão (e cidadã!) sofrer.

O exemplo do SNS neste contexto é paradigmático. Ao subordinar os serviços públicos às metas do défice, mantém o subfinanciamento crónico do SNS, continuando a falta de profissionais, a obsolescência dos equipamentos, o atraso em consultas e cirurgias, e a triste realidade do caos nos hospitais. Tinha de ser assim? Não, não tinha, é a escolha de Mário Centeno e de António Costa, dado que havia dinheiro para ser diferente. Essa obsessão pelo défice está a impedir a transformação que era realmente necessária no nosso país e começa a paralisar o governo. Já parece ladainha a resposta ministerial de que algo não está a ser feito ou implementado porque espera de autorização do Ministério das Finanças. Os vetos de gaveta de Mário Centeno são a sua principal arma política e são utilizados quotidianamente.

Num contexto de melhoria económica, devíamos dar passos para resolver os atrasos do país nos serviços públicos e no modelo económico, fazendo as reformas estruturais progressistas de que precisamos. Contudo, o tempo passa e continuamos sem resolver a questão da dívida pública, a ignorar a dependência do turismo, a basear o emprego nos salários baixos e na precariedade. E, como dá tanto dinheiro a tantos bolsos e até às contas públicas, nada se faz para responder à bolha imobiliária que se está a gerar nos grandes centros.

A pedra no meio do caminho da geringonça seria frustrar a esperança de uma verdadeira transformação. O tempo, implacável, não espera por quem não o aproveita nem faz uso das boas condições económicas do presente para preparar o futuro.

Artigo publicado em “Diário de Notícias” a 1 de fevereiro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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