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Trump e o obituário da paz

Os Estados Unidos nunca foram um mediador sério no processo de paz nem na solução dos dois Estados. A recusa da partilha de Jerusalém é o sinal mais transparente das últimas décadas sobre uma futura partilha do território como solução de paz.

Trump conseguiu outro pleno de delinquência internacional. Foi esta a reação generalizada à decisão tomada pela administração norte-americana de reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

Com uma só decisão Trump humilhou milhões de palestinianos, ofendeu centenas de milhões de árabes em todo o mundo, chateou meia dúzia de poderosos aliados e compilou uma lista de opositores em que consegue juntar a Europa, a China, a Turquia e o Papa.

A vontade de corresponder ao desejo ocupacionista de Israel não é nova. Existe pelo menos desde 1995, quando o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma Lei que previa a mudança da Embaixada de Telavive para Jerusalém. Mas por alguma razão nenhum Presidente eleito desde então concretizou essa lei. Nem Clinton, nem Bush, nem Obama.

Então, porquê agora? Aventaram-se muitas motivações, todas relacionadas com a necessidade de compensar os vários escândalos internos e muros por cumprir. Escreveram-se artigos sobre o poder do eleitorado evangélico, 82% dos qual acredita que Deus ofereceu Israel ao povo judeu. Lembraram-se os milhões oferecidos pelo magnata judeu Sheldon Adelson à campanha de Trump.

São insondáveis os caminhos de Trump, mas é certo que todos levam à guerra. Já vimos um sinal disso com os ataques de Israel à Faixa de Gaza e a repressão violenta dos protestos de palestinianos. Tornou-se um símbolo a fotografia do rapaz palestiniano de 14 anos vendado e visivelmente espancado a ser arrastado pelo exército israelita.

Jerusalém é, desde 1947 uma cidade com um estatuto especial por ser reclamada por ambos os Estados como capital e ser uma referência para as três religiões monoteístas. A decisão dos EUA viola a lei internacional e inúmeras resoluções das Nações Unidas, acordos e protocolos internacionais. Nada de novo no que toca à Palestina, onde cometer crimes e violar leis é o dia a dia de Israel. De cada vez que o mundo olha para o lado nascem mais umas dezenas de milhares de colonatos numa ocupação sistemática de território palestiniano.

Nada de bom sairá desta decisão, que apenas tem uma utilidade. Ela vem demonstrar que os Estados Unidos são o único juiz que Israel admite porque Israel nunca aceitará um Tribunal imparcial. Os Estados Unidos nunca foram um mediador sério no processo de paz nem na solução dos dois Estados. A recusa da partilha de Jerusalém é o sinal mais transparente das últimas décadas sobre uma futura partilha do território como solução de paz.

A esta afronta só poderá seguir-se o reconhecimento internacional do Estado da Palestina. Não há outra saída, agora que foi escrito o obituário da paz e da solução dos dois Estados. Não o fazer significa aceitar os termos de Trump e do extremista Netanyahu sobre a ocupação definitiva de todos os territórios da Palestina. Nenhum povo aceita pacificamente ser colonizado, é bom que o mundo tenha consciência disso.

Artigo publicado no jornal “I” em 20 de dezembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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