You are here

O que quer a direita?

Ao que assistimos atualmente, no fundo, é a tentativa de criar uma névoa de insegurança sobre o futuro, para fazer regressar o debate ao campo onde a direita desejava que nunca tivesse saído, o dos cortes e da austeridade.

Por estes dias, tem-se procurado, à viva força, criar uma crise política. É ler, ver e ouvir os mais diversos comentadores da nossa praça, cuja narrativa anuncia sempre a exaustão da solução de governo: o governo está preso nas contradições da atual maioria política e as coisas estão a descontrolar-se.

É verdade que esta narrativa carece de alguma coerência: tão depressa o governo é acusado de ser um pau mandado de Bloco de Esquerda e PCP, como a seguir, com a mesma veemência, é elogiado por vergar a esquerda a uma política de restrição orçamental. Veja-se o que dizem PSD e CDS neste debate orçamental, nuns momentos o orçamento é despesista e serve para responder às "clientelas da esquerda". Minutos depois, acusam o orçamento por ser marcado pelas cativações e pela ausência de investimento público, "que a esquerda tanto defendia".

Olhando para o jogo duplo da direita, pode-se dizer que, dentro da incoerência, existe alguma coerência. Assim parece quando defendem o objetivo do défice zero e uma política de restrição das contas públicas e, depois, no concreto, apresentam propostas para um aumento de despesa superior a 1.500 milhões de euros. Coerentemente incoerentes? Não, apenas demagogia e oportunismo.

E o beneplácito com os argumentos analisados, dão conta de uma certa inimputabilidade da direita. Veja-se o exemplo de Assunção Cristas, que consegue afirmar que os "professores têm razão" sobre o descongelamento de carreiras, para logo depois dizer que "não é nenhuma surpresa que outros venham identificar fragilidades", cavalgando as ameaças da Comissão Europeia com os "riscos de não cumprimento" dos requisitos do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC). Não é confusão, é deliberado, é mesmo defendido tudo e o seu contrário, num intervalo de um telejornal.

O desespero com a política de reposição de rendimentos, iniciada em 2015, é notório. Por vezes, assume mesmo o ridículo. Primeiro, ansiava-se a vinda do diabo, anunciado por Passos Coelho, desejando um descalabro económico. Depois, esperava-se que viesse das instituições europeias uma censura à política seguida. Ainda esta semana, foi o próprio patrão dos patrões, António Saraiva, que foi a Bruxelas fazer "o queixume que temos em relação às escolhas que foram tomadas" no orçamento de estado em discussão. A angústia vem acompanhada pelo despudor de declarar publicamente que se anda a fazer queixinhas à Comissão Europeia.

O verdadeiro problema da direita - e dos interesses instalados na sua política - prende-se com as escolhas de fundo que têm sido possíveis desde o acordo do PS com os partidos à sua esquerda.

É certo que o governo do PS não está isento de crítica. O executivo não soube lidar com o drama dos incêndios. Tem sido equívoco na sua mensagem e parece não ter uma coordenação à altura do momento político. Contudo, a direita que cortou brutalmente no Estado, não tem qualquer legitimidade para criticar estes acontecimentos, é pura hipocrisia.

Mais recentemente, voltou o apelo à divisão entre o setor público e o setor privado. Segundo os seus ideólogos, a direita é muita mais amiga do trabalhadores do privado, enquanto a esquerda é refém dos "lobbies do setor público".

Muitos trabalhadores do privado devem rir-se a bandeiras despregadas com esta afirmação, pois a única forma de juntar na mesma frase as palavras amigos, direita e trabalhadores, é dizendo que PSD e CDS foram os "amigos da onça" no que toca ao rendimento dos trabalhadores. "Roubaram" rendimento das mais diversas formas e feitios, desde o "enorme aumento de impostos", até à sobretaxa de IRS, ou pelo aumento do IVA de bens essenciais como a eletricidade. E os trabalhadores bem sabem como o aumento brutal do desemprego serviu para baixar o valor dos salários.

Por outro lado, será verdade que a atual maioria política esqueceu os trabalhadores do privado para privilegiar os trabalhadores do Estado? É uma ideia absurda. É verdade que foram eliminadas muitas das injustiças que estavam a ser aplicadas aos funcionários do Estado, começando pelos cortes salariais e desejando agora iniciar o processo de descongelamento das carreiras. É, ainda, verdade que as alterações fiscais não discriminam entre quem trabalha no Estado ou fora dele e que o aumento dos escalões de IRS beneficia toda a gente.

Mas, o que dizer de uma das propostas mais importantes do acordo entre o Bloco de Esquerda o PS, o aumento anual do Salário Mínimo Nacional? Essa proposta garantiu que, no mínimo, até 2019 existisse um aumento salarial direto superior a 2.500 milhões de euros no bolso de trabalhadores, na larguíssima maioria do setor privado. Contra factos, não há preconceitos da direita que resistam.

Ao que assistimos atualmente, no fundo, é a tentativa de criar uma névoa de insegurança sobre o futuro, para fazer regressar o debate ao campo onde a direita desejava que nunca tivesse saído, o dos cortes e da austeridade. Não é qualquer reivindicação sindical ou qualquer mobilização social que colocam em causa a atual solução política, é na possibilidade da desistência ocupar o lugar da esperança que espreita o perigo.

A pergunta não pode ser, como dizia o Presidente da República, se caímos "na ilusão de achar que podemos voltar ao ponto antes da crise" ou se "podemos dar tudo a todos". Essa é a via da resignação, que caricatura os direitos em sonhos impossíveis, para dizer que são impossíveis. É a escolha de quem semeia o medo, para matar a esperança resgatada em 2015. Com esta ideia e este projeto, o impossível é mesmo a direita regressar ao poder

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 23 de novembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
(...)