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O risco da intoxicação de banalidade

O episódio do Panteão tem mais significado pelo que não diz do que pelo que diz.

Não é que não tenha graça em si mesmo. De facto, ele revela todos os tiques da política: o governante que assinou o despacho abrindo a porta à mercantilização do espaço atira-se para a televisão indignado por ter sido usada essa técnica de financiamento que ele inventou, mas não se lembra se ele próprio autorizou coisa parecida; o secretário de Estado do turismo do anterior governo, que achou tudo bem, junta-se à pândega e faz doutrina de partido; esses mesmos ex-secretários de Estado que aprovaram o fim dos feriados da Independência e da República gritam agora pelos altos valores pátrios magoados pela moça dos jeans rotos; o governo diz que nada sabia e que é inadmissível e a directora do Panteão mais a direcção geral do Património, que podiam aprovar ou recusar o banquete da WebSummit, respondem que tudo vai da conta calada, pois a tabela de preços é o que importa e está no despacho.

Tudo se vai diluindo entretanto numa farsa sem fim. Afinal, no sábado houve outra jantarada no Palácio da Ajuda; nos Jerónimos, é só marcar; noutros monumentos, mais ou menos solenes, é fazer as contas. No próprio Panteão, é coisa vezeira, já houve Harry Potter com bruxarias e mezinhas, e haverá o que mais se quiser, desde missas cantadas a outras iguarias. Dispor dos lugares da memória tornou-se trivial, e na sede da PIDE na António Maria Cardoso ficou só um condomínio de luxo.

Isso é o que foi dito. Terá consequências: no afã de mostrar serviço, devem cair do céu algumas proibições solenes. Ora, talvez valha a pena pensar antes de decidir. Primeiro, porque a mercantilização dos espaços de monumentos nacionais resulta do seu sub-financiamento e dessa ideia peregrina de que o critério da sua existência é a criação de lucro. Se o Estado quiser ser sério, custa dinheiro. Se for “menos Estado”, custa respeitabilidade. Segundo, porque a realização de cerimónias públicas nos espaços públicos é desejável. Ou não vai haver assinatura de tratados nos Jerónimos? Ou colóquios e concertos em Mafra? Ou banquetes de Estado em diversos destes espaços? Ou concertos nas igrejas, já agora ao lado de túmulos, os tais que não estão naquela sala do Panteão? Se o critério for o interesse público, a abertura ao público e o significado cultural ou nacional e não o dinheirinho e a vaidade privada de uma qualquer festarola, então ficará estabelecido um padrão compreensível e haverá bons momentos de música ou outras cerimónias culturais no Panteão.

Mas o que não foi dito, insisto, é mesmo o mais importante. É esta híper-sensibilidade às redes sociais, o medo do que possa parecer, mais do que ser, a vertigem de agir logo antes que se fale muito do caso. Depois de Pedrógão e das semanas à espera do tal pedido de desculpas, como se isso fosse a salvação das vítimas de ontem e das pessoas ameaçadas no futuro, o governo corre agora para atalhar problemas, mesmo problemas inventados na bolha, ou sobretudo estes. Gato escaldado da água fria tem medo e qualquer tweet escaldante mobiliza o conselho de ministros num ápice. O facto é que este país fica intoxicado de banalidade, de corrida para o boato, de ping pong sem memória, em que os maiores trafulhas se fazem de virtuosos.

Ao desviar-se do orçamento, dos impostos, das notícias do bolso das pessoas e da visão estratégica na economia, o governo estará a deixar perder a sua vantagem. Para o governo, a direita a reclamar o seu passado no corte de pensões é a prenda celestial; mergulhar a WebSummit, o seu esfuziante ícone modernista, na confusão do banquete, é fugir para o purgatório. A contaminação pela banalidade é a estratégia da direita, nada mais lhe restando. Pela primeira vez, está a resultar e só porque o governo está nervoso.

Artigo publicado no jornal “Público” em 15 de novembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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