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A gota de água

Os negacionistas das alterações climáticas passam por tempos difíceis. Também aí é preciso ter fé.

Não há nada nem ninguém que impeça quem é crente de rezar. Para uns, é o deserto interior do homem em tempo de aflição que convida a oração para o remédio dos males. Um caso de desespero. Para outros, é a imensidão da alma que, nesta sua pequenez de teimar ser entre muitas, crava os braços ao céu pedindo pelo bem comum. Um caso de esperança. No fim da história, o dilúvio. O cardeal D. Manuel Clemente assina um comunicado a rogar por chuva aos seus diocesanos, acompanhado de Oração Coleta aos sacerdotes do Patriarcado de Lisboa: "Deus do universo, em que vivemos, nos movemos e existimos, concedei-nos a chuva necessária (...)". Esta co-responsabilização divina pela seca dos homens é, como toda a fé que se imputa ao alto, bipolar pelo confronto entre a criação do mal e a boa resolução. "Ouve as minhas preces", tanto se cantou. No momento em que possam ler esta blasfémia torpe, é provável que caiam as primordiais gotas que anunciam as primeiras chuvas da época. Mas "O boletim meteorológico anunciou calor", escreveu Jorge Palma numa das canções do "Bairro do amor", qual profecia das teses do aquecimento global, arte líquida. E é por isso que já não chega a "chuva necessária" que o divino, magnânimo, nos conceda.

Em matéria oficial, a Protecção Civil foi dizimada pelos fogos mas a assertividade do Boletim Climatológico do Estado não deixa margem para chuvas: segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a 30 de Setembro, 81% de Portugal continental sofria de seca severa. A seca extrema afectava 7,4% do território e a seca moderada elevava-se a 10,7%. 0,8% do solo sobrevivia em seca fraca. Feitas as contas, sobra aquele 0,1%, a gota de água. Os negacionistas das alterações climáticas passam por tempos difíceis. Também aí é preciso ter fé.

Vai para além da crendice. A gestão e poupança individual de água faz parte do manual dos bons costumes, civilização e responsabilidade solidária em comunidade. O planeta enquanto condomínio. A Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca, criada em Maio, agrupa responsáveis de diversos ministérios e acorda para o nono verão mais quente desde 1931. Anunciam-se, agora, redobradas campanhas pela poupança e pela utilização racional dos recursos naturais. A tese do pecado original dos consumos privados é, sem dúvida, válida enquanto alerta. Mas as assimetrias da distribuição da água no território não se resolvem num abrir e fechar de torneira. Planificação e ordenamento, dessalinização. Como no caso dos fogos florestais, continuamos a chover no molhado com uma gota de água.


Artigo publicado no Jornal de Notícias a 1 de novembro de 2017.

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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