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Por que arde?

Sabe-se há muito por que tanto arde: as tais razões estruturais relacionadas com o estado da floresta e da agricultura e, subjazendo-lhes, o condicionalismo demográfico, económico e social do interior.

Pretender responder a esta pergunta pode parecer presunção, “ir além da chinela”, já que tanto há quem com elevada autoridade profissional, técnica e até científica para o fazer.

Mas, em última análise, os incêndios florestais, mais do que uma questão científica, técnica, administrativa, militar ou policial, são uma questão eminentemente social, uma questão em que, projectando-se as suas consequências nas pessoas e nas suas condições de vida, é também de algum modo das condições e circunstâncias de vidas das pessoas que emergem muitas das causas (próximas ou remotas, conjunturais ou estruturais) dos incêndios.

Aliás, é a própria comunidade técnica e científica que reconhece e destaca isso, a importância preponderante da sociedade, das condições de vida, da informação, da opinião e da vontade das pessoas (e, concretamente, das pessoas do mundo rural) na prevenção e até no combate aos incêndios florestais. Basta ler o que dispõe o recente Relatório da Comissão Técnica Independente sobre o incêndio de Pedrógão Grande – CTIi - quando, entre as 20 propostas finais que assume, destaca o “envolvimento da sociedade no problema dos incêndios”, a “associação das populações às medidas de protecção contra incêndios rurais” e a “mobilização e valorização do conhecimento e colaboração locais” (propostas Nº 10.18, 10.19 e 10.20 – pags. 173, 174 e 175 do relatório).

Daí, e até porque directa ou indirectamente todos somos afectados, ser natural que todos tenhamos (e até devamos) algo a dizer. E, mais, porque “as questões sociais são mais do foro da vontade que do foro da ciência” (como escreveu Pierre Bourdieu), não só todos temos algo a dizer como, sobretudo, todos temos algo a fazer (ou, pelo menos, a aprender a fazer), quanto mais não seja no nosso comportamento pessoal de prevenção ou no de, como cidadãos, exigir a quem de direito e com poder para tal que faça o que pode / deve fazer. Ou fazer fazer.

Voltemos, então, à pergunta do título: por que arde? Desde logo, porque começa a arder. Sim, mas por que começa a arder?

Razões de ordem técnico-científico associadas ao comportamento do fogo e da floresta, sabe-se. Também muita incúria, negligência, falta de cuidado consigo próprio e com os outros, alguma tresloucura e, mesmo, algum dolo. Certo.

Mas, depois, por que alastram tanto os incêndios e continuam a arder?

Sim, também, (como igualmente é realçado no relatório da CTI), por razões associadas ao modelo, incompetência ou incapacidade estratégica, táctica, de prontidão e operacional ou de meios do sistema público de protecção civil (ANPC), mau grado o corajoso, solidário e generoso esforço de quem a ANPC enquadra e mais dispõe nas circunstâncias de combate aos incêndios florestais: as bombeiras e os bombeiros.

Mas, estruturalmente, muito mais por outras razões, mais ou menos interligadas: para além das climatéricas, outras mais de fundo, acumuladas durante anos e anos. Como sejam, razões relacionadas com a floresta propriamente dita (falta de ordenamento, de acompanhamento institucional e profissional e, em geral, de gestão florestal), razões demográficas (desertificação do interior, envelhecimento), razões económicas (abandono ou alterações de cultivo da agricultura, da pastorícia e da exploração comercial da floresta, limitação da actividade económica praticamente à pequena indústria e comércio).

E, sobretudo, razões sociais (falta de emprego, migração para o litoral, emigração, alterações nos modos de vida e de habitação), e socio-políticas (abandono social e empresarial do interior, por isolamento ou condicionamentos rodoviários e ferroviários, bem como pela eliminação ou redução dos serviços públicos desconcentrados de saúde, educação e justiça, principalmente).

De forma mais geral, subjacente a tudo isto, durante décadas, incompetência e desleixo político e administrativo a nível local, regional e, sobretudo, nacional.

Enfim, anos e anos de insuficiente ou precária atenção e reflexão (e, sobretudo, acção) económica, social, institucional e (necessariamente) política devida para o interior do país. Entenda-se: ao interior, mas social e concretamente considerado como sendo o das pessoas e das suas condições de vida e não o “interior” entendido como meramente estatístico ou administrativo.

É muito isto, o estado físico, territorial, económico e (sobretudo) social em que, em regra (há excepções), está (foi passando a estar) o interior do país que, “invisivelmente”ii alimenta e alastra (deixa alastrar) os incêndios florestais (no sentido lato, porque o que tem ardido tem sido, infelizmente, muito mais do que floresta), que tanto faz arder.

Acontece que - voltando agora a questões mais conjunturais e “técnicas” - sabe bem quem de algum modo mais de perto acompanha directa ou indirectamente este domínio, em locais e condições florestais, orográficas e climatéricas a isso propícias (especialmente, temperatura, humidade e vento), o que já arde, por via de “projecções” (em que preponderam muito folhas, partículas e outro material incandescente projectadas à distância, nalguns casos a quilómetros, pelo vento e mesmo pela deslocação de ar que o próprio fogo pode gerar) e de outros fenómenos físico-químicos relacionados com a floresta e o fogo, deflagram fogos (ignições) noutros locais que, “por interacção e junção entre si e entre todos e a frente principal das chamas”, vão aumentar a intensidade” e alastrar os incêndios (cita-se o relatório da CTI pag. 68).

Ou seja, perversamente, arde muito porque começa a arder mas, também, muito começa ou recomeça a arder porque já arde muito.

Uma coisa é certa. Ainda que não se determinasse já, em todos os casos e com precisão (e, como já se referiu, também o relatório da CTI trata isso) por que começa tanto a arder (desencadeamento de ignições), sabe-se já há muito e com muita certeza por que, depois, tanto arde, tanto continua a arder: as tais razões estruturais relacionadas com o estado da floresta e da agricultura e, subjazendo-lhes, o condicionalismo demográfico, económico e social do interior.

Então por que não se intervém já nesta última vertente em que se conhecem bem as causas, as razões, estruturais, por que alastram tanto, por que é ardem, por que continuam tanto a arder os incêndios florestais?

Daí, a pergunta do título deste texto: “Por que arde?”.

A resposta (económica, social, sobretudo política) consequente a esta pergunta é premente. Até porque também é essa resposta (e coerente acção) que, como já vimos, prevenirá que mais muito comece ou recomece a arder.

Impõe-se uma palavra de luto e respeito pela memória das pessoas que pereceram, bem como de condolências às respectivas famílias.

E, também, uma palavra de solidariedade para com as pessoas que ficaram feridas, foram lesadas nos seus bens ou condições de vida ou, de algum modo, sofreram pessoal ou familiarmente como consequência dos incêndios.

Mas, igualmente, uma palavra de saudação e agradecimento aos que, dando o melhor das suas forças, com risco da sua saúde, da sua integridade física e da sua vida, procuraram proteger as pessoas e os seus bens: especialmente, as bombeiras e os bombeiros.

Sobre o/a autor(a)

Inspector do trabalho aposentado. Escreve com a grafia anterior ao “Acordo Ortográfico”
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