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CDU e eleições autárquicas

As eleições de 1 de outubro de 2017 tiveram um efeito curioso, não permitiram que o Secretário-Geral do PCP fizesse o discurso da vitória, discurso que acontecia sempre, fossem bons ou maus os resultados.

As eleições de 1 de outubro de 2017 não foram um terramoto político, não foram daquelas, como as de 2001 ou 2013 que influenciaram profundamente a política nacional. Porém tiveram um efeito curioso, não permitiram que o Secretário-Geral do PCP fizesse o discurso da vitória, discurso que acontecia sempre, fossem bons ou maus os resultados. Se noutros partidos as alterações não foram grandes e corresponderam ao esperado, o PCP perdeu votos, e, sobretudo, perdeu alguns dos seus bastiões. Não houve discurso de vitória, mas também não houve autocrítica, nem, que tenha transparecido publicamente, uma tentativa de perceber as razões da(s) derrota(s).

De facto aquilo que se tem visto é um discurso do tipo “a CDU não perdeu, a população é que perdeu”, ou “daqui a quatro anos vão-se arrepender”, o discurso oficial também não é melhor com um raciocínio rebuscado: “o PCP tem trabalhado para melhorar as condições das pessoas, mas estas acabaram por votar PS”, ou “tudo se deve à campanha anticomunista” e de forma mais benigna “não foi devidamente valorizado e nalguns casos [foi] ofuscado pelas circunstâncias e factores que não foram apenas locais”. Trata-se de eleições locais e devem-se procurar causas em razões locais e nacionais.

O histórico das eleições não confirma a ideia de vitórias continuadas. A comparação com 2013 é impressionante: menos 42 mandatos em Câmaras Municipais, menos 63.618 votos (votações para a Câmara Municipal), mas se recuarmos a 1982 é muito mais impressionante, pois, na altura a APU teve 1.038.033 votos e 316 mandatos em câmaras municipais. Eram 55 câmaras, contra as atuais 24. De mais de um milhão de votos passou para menos de 500.000.

O discurso de vitória parece já não fazer sentido, desde o início dos anos 80, as quedas são quase constantes, as ligeiras recuperações em 93, 2005 e 2013 nunca chegam a compensar o perdido em eleições anteriores. A maior descida é ainda nos anos 80, sendo Cunhal secretário-geral e anterior ao desmoronamento do “Bloco de Leste”. A entrada de cada novo Secretário-Geral (Carvalhas em 1992, Jerónimo de Sousa em 2004) corresponde a uma pequena recuperação.

Há dois factos significativos antes deste processo eleitoral. As coligações em que participa o PCP e os candidatos que lhe são associados ficaram pela segunda vez consecutiva abaixo do Bloco de Esquerda e da sua candidata presidencial. Foi também a primeira vez que a CDU teve uma votação autárquica abaixo do meio milhão, em legislativas há muito (1999) que estava abaixo desse limiar.

A queda da votação do PCP suas coligações e candidatos não tem sido um processo contínuo, o acontecido nos últimos atos eleitorais, apesar de não ter números dramáticos (exceto os menos de 200 mil votos nas presidenciais) parece configurar um novo limiar nessa queda. Se cada município que a CDU perdeu tinha as suas causas locais para essa derrota há fatores políticos e demográficos mais gerais a contribuir para essas perdas.

O eleitorado do PCP é tipicamente mais idoso e menos instruído. A velha classe operária, o velho proletariado rural que se tornaram bastante minoritários em Portugal. O PCP tem tido dificuldade em penetrar nos escalões etários abaixo de 50 anos, nas novas camadas de trabalhadores tão explorados como a velha classe operária. Décadas de um sindicalismo baseado na greve de um dia, nas manifestações semanais, contribuíram fortemente para isso. Politicas internas isolacionistas e externas de apoio às ditaduras mais odiosas também não permitem chegar a novas camadas.

As promessas, ou “ameaças” de voltar a ganhar as câmaras e freguesias perdidas daqui a quatro anos não parecem fazer muito sentido, a não ser que as coisas corram muito mal a quem ganhou as câmaras ao PCP, as políticas vão continuar iguais, a falta de sentido crítico em relação à queda só faz pensar que esta vai continuar.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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