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Os comentadores e as autárquicas

A direita perdeu, a esquerda ganhou mas é a “geringonça” que está em risco. Fantástico!

Passou uma semana após as eleições autárquicas. Fomos inundados de comentários aos resultados e às suas consequências. E, como é habitual, a grande maioria seguiu uma leitura de direita, melhor dizendo, favorável à direita e contra a esquerda apesar desta ter alcançado uma grande vitória e a direita uma grande derrota.

Deixando de lado o estado de sítio em que mergulhou o PSD nos últimos tempos e a novela dos candidatos à sua liderança – essa, sim, fruto dos resultados - em que se traduz essa leitura de direita?

Em primeiro lugar, na tese de que a vitória da esquerda põe em causa o futuro da “geringonça”, seja porque o mau resultado do PCP coloca o partido em linha de rotura com o governo e a maioria de esquerda que o apoia no Parlamento, seja porque estimula o Bloco de Esquerda e o PCP a novas exigências que o governo não pode satisfazer, do que resultará inevitavelmente a desagregação da atual maioria, vaticinando até alguns que será já por ocasião do próximo Orçamento do Estado. Alguns anunciam mesmo um imparável surto grevista, como nunca visto, e perante o qual o governo acabará por cair. Não deixa de ser curioso e caricato que, mais que o próprio PCP, sejam os comentadores de direita a atribuir o insucesso eleitoral do PCP ao seu apoio à “geringonça”.

Em segundo lugar, a hipervalorização do resultado do CDS e a sua projeção para o futuro como o grande partido da direita portuguesa. Mesmo admitindo que a situação do PSD favorece o CDS, é preciso não confundir - como fazem deliberadamente os comentadores - o resultado conseguido em Lisboa por Assunção Cristas e o resultado nacional do CDS. Cristas tem um bom resultado na capital – o que não admira olhando para a candidata apresentada pelo PSD - mas o CDS tem um mau resultado no país. O CDS perdeu votos em relação a 2013, passou de 152.073 para 134.257. Perdeu mais votos que o PSD e obteve menos votos que o Bloco de Esquerda. Um resultado que não permite alimentar essa narrativa forjada de um grande crescimento do CDS no futuro próximo. O CDS não deixou de ser o quinto partido português.

Os comentadores podem influenciar a percepção da realidade feita pela opinião pública mas não mudam a realidade... E, paciência, os seus desejos não são a realidade.

Sobre o/a autor(a)

Médico. Aderente do Bloco de Esquerda.
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