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PPC teria mais votos que TLC e ASA?

Eis a "after-party" do PSD. Pedro Passos Coelho (PPC) não se recandidata a presidente do PSD no próximo Congresso e abandonará a liderança do partido sem se sujeitar a mais uma humilhação nacional.

Ao anunciar um período de reflexão após o desastre eleitoral de domingo, não consegue sequer simular que pendura a palavra tabu em acto suspenso. Não é uma palavra para todos. Espremendo a laranja, do sumo ácido do discurso de Passos apenas se filtra um apetite imediato: ganhar tempo até que as suas tropas internas se reorganizem para uma sucessão a contragosto.

Abreviando em maiúsculas. O espanto percorreu boa parte da análise política durante a noite, naquela "after-party" após a hecatombe de que só o PSD é capaz. Após o encerramento das urnas, as primeiras sondagens indicavam a enorme dificuldade que Teresa Leal Coelho (TLC) e Álvaro Santos Almeida (ASA) teriam em chegar aos dois dígitos de votação. E perante o desfile alegórico do ex-actual-e-futuro baronato do partido, a realidade ultrapassava pela direita a ficção de Passos: era Assunção Cristas que se assumia como vencedora à direita, a cantar de galo entre o eleitorado do PSD. E é quando a realidade obriga a perguntar: PPC conseguiria melhores resultados em Lisboa e Porto do que TLC e ASA? Não me parece. Passos Coelho insistiu em permanecer como virtual líder da Oposição e mostrou que ser cangalheiro de um partido é isto.

Com Luís Montenegro alinhado para futuras núpcias ou para um simples tubo de ensaio, Rui Rio perfila-se como o senhor que se segue. Esventrado por Rui Moreira no discurso de maioria absoluta no Porto, o futuro candidato não mede forças sem oposição ou com as sondagens. Mas só um PSD em autofagia poderá eleger Paulo Rangel, Pedro Duarte ou Marco António Costa no futuro próximo. Rui Rio deve anunciar a sua candidatura na próxima semana e lançará as bases para algo que até Marques Mendes vaticinará como certo mas sem errar. Ganhará o partido. Pode acusar-se Rui Rio de aparecer apenas no pior momento, como um abutre de laranjeira. Mas, honra lhe seja feita, teve que lidar com muitas peças soltas fora da sua família política. Enquanto Rio ia montando a sua própria máquina, houve toda uma geringonça que lhe caiu no colo. O momento foi generoso.

E é nestes momentos que todo um mundo se faz até lá. Até ao Congresso, os putativos candidatos à liderança do PSD terão a oportunidade de - querendo - recentrar o discurso do partido, subtraindo-o à perigosa deriva neoliberal a que Passos Coelho o condenou. Um partido preso à vista desarmada durante anos, à traição da sua história, ideário e tradicional eleitorado, mas com a anuência de muitos dos que agora fazem a "after-party". Há mesmo imensas combinações possíveis com sumo de laranja.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 4 de outubro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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