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A gula absoluta do "centrão"

Portugal conhece demasiado bem o resultado das maiorias absolutas do "centrão". Nos governos, como nas autarquias, o poder incondicional serviu as piores políticas, corroeu a qualidade da democracia e minou a credibilidade do sistema político.

Lisboa e Porto. As duas maiores cidades do país, muito diferentes entre si, mas ambas geridas em regime de maioria absoluta, e ambas dominadas pelo centrão político.

Rui Moreira e Fernando Medina tiveram recursos e poder. Em Lisboa, porque a maioria absoluta do PS assim o determinou; no Porto, porque Pizarro foi - e quer voltar a ser - a peça que completa a maioria absoluta de Moreira. O silêncio cúmplice que o candidato do PS manteve durante todo o anterior mandato no caso Selminho está aí para o comprovar.

Em ambos os casos, ressalvadas as suas diferenças, o poder destes presidentes não foi usado para travar a especulação imobiliária, mas para a promover. Não foi usado para acabar com a precariedade, mas para a manter. Não foi usado para garantir estabilidade, mas para trazer opacidade e alimentar o sentimento de impunidade.

No Porto, como em Lisboa, sentem-se os resultados das políticas do "centrão" - a gentrificação, a debilidade das políticas de habitação e transportes, a turistificação sem regras ou limites - e a falta que a transparência faz às democracias. Abundam os ajustes diretos, multiplicam-se os concursos mal explicados, com um só concorrente, e um só preço, mesmo junto ao limiar de licitação.

Os últimos dois anos e meio mostraram ao país o que é possível fazer quando se rompe com a arrogância das maiorias absolutas, e se quebra o carrossel vertiginoso do "centrão". Ao Governo autoritário de Passos Coelho contrapôs-se uma democracia parlamentar reforçada, em que todos os votos contam e nada está decidido à partida. O congelamento de pensões e facilitação de despedimentos que o PS levou a eleições foi substituído por um conjunto de medidas de recuperação de rendimentos, negociadas e discutidas à Esquerda.

Se, de hoje até ao domingo de eleições, há quem se ocupe a pedir para si poder absoluto, farei aqui o exato oposto. Que saibamos usar estas eleições para rejeitar as maiorias absolutas e eleger autarcas com ideias, propostas e capacidade de escrutínio. Gente que, no Porto, em Lisboa, em todo o país, conte para fazer a diferença.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 26 de setembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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