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Vai ser tão bom, não foi?

É bem provável que boa parte dos compradores dos vistos gold portugueses nunca cheguem a viver em Portugal.

Não só porque a isso não são obrigados mas também porque nunca foi segredo para ninguém que escapar da prisão para viajar é tarefa árdua. Alguns deles estão hoje presos. Outros, acusados ou em investigação. A maioria, não cuida de cá vir apesar de ter tentado encontrar-nos a custo no mapa. A autorização de residência que permite circular em todo o espaço Schengen, adquirida pela módica quantia imóvel de 500 mil euros com um conjunto de obrigações facilmente iludíveis, foi a maior pechincha do Governo PSD/CDS em tempo de troika. Infelizmente, não para portugueses. Para portugueses não saiu nada barato. E foi assim que alguns cidadãos do Mundo com mais do que um pé-de-meia no chinelo, passaram a saber - em 2013 e 2014 - onde ficava Portugal. Aquele país facilitador e que se pôs convenientemente a jeito para ser a primeira das máquinas de lavar da Europa. Entretanto, alguns deles e em sede própria, desataram a lavar a jato.

Nesses anos dourados de aperto do cinto, poucos foram os que estrangularam pelo nó da gravata. Nestas coisas das benesses de mercado, o colarinho ainda tem um peso muito específico. Aqueles que agora vociferam contra a nova lei da imigração por permitir a autorização de residência a quem apresente promessa de contrato de trabalho e inscrição na Segurança Social, são aqueles que nunca cuidaram de perguntar de onde vinha o dinheiro para a compra dos imóveis portugueses prontos a lavar ou de saber quantos postos de trabalho reais foram criados pelos vistosos vistos. Oito. Já se cantava na canção-peçonha "Uma casa portuguesa": "A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente". Para Passos e Portas, esta cantilena valeu ouro nos anos dos vistos dourados.

O Diabo não apareceu mas, enquanto gozava descanso e esfregava o olho, a Standard & Poor"s retirou Portugal do lixo. Em boa verdade, ninguém se cansou de esperar: a Moody"s pode reavaliar o rating de Portugal antes do previsto e a Fitch admite alterar o seu calendário de avaliações. O Diabo está confuso. Estas três agências, patronos da notação financeira mundial, não deram pela falência da Lehman Brothers em 2008 e reagiram com surpresa à crise das dívidas soberanas, mas (pasme-se) olham para Portugal com animação depois da transfusão de sangue a que nos obrigaram. Talvez tenham a sensação do dever cumprido, abutres deixando o quase cadáver. Agora que Mário Centeno, no ponto de aceitar o rebuçado, admite caucionar positivamente o agressor submetendo-se à votação para liderar o "futuro-extinto" Eurogrupo, confirma-se que o Diabo não apareceu mas que deve estar a cantar, divertido, "Uma casa portuguesa". Vai ser tão bom, não foi?

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 20 de setembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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