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Pensar grande ou propor mal?

A ideia de reconverter o aeródromo de Cernache em aeroporto internacional de Coimbra tornou-se foco do anedotário nacional.

A responsabilidade é de quem apresentou a ideia e do modo como a apresentou. Quem não foi capaz – por ação e por omissão – de obrigar a que se cumprisse em Coimbra e na sua área envolvente o compromisso assumido por sucessivos governos nacionais e municipais de um sistema de mobilidade ferroviária moderno, confortável e ambientalmente sustentável, quem vergou perante a nega de Bruxelas em viabilizar o financiamento desse projeto – o Governo acaba de anunciar que a projetada linha Aveiro-Mangualde, orçada em 675 milhões de euros e duas vezes chumbada nas Europas será de novo apresentada a financiamento… – não tem qualquer credibilidade para vir agora anunciar um aeroporto para Coimbra. E atirar a proposta sem cuidar de assegurar a sua viabilidade nem de a ancorar numa ponderação estratégica nacional e regional com a implicação das cidades que estruturam o centro do país é condená-la a ser o que ficou a ser: motivo de chacota contra Coimbra. Manuel Machado, que sempre que é criticado clama “não digam mal de Coimbra”, foi o principal responsável por que, agora e durante muito tempo, Coimbra seja motivo de risota nacional. Porque o que ele fez não foi “pensar grande”, foi simplesmente propor mal.

Aos cidadãos que não querem menos que uma Coimbra amiga das pessoas que nela vivem, a novela do aeroporto não pode servir de nuvem para que seja esquecida a luta por um serviço de transportes públicos qualificado neste concelho. Os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC) fazem hoje menos 20 milhões de viagens/ano do que faziam há poucos anos, a taxa média de ocupação dos autocarros é de 11%, o cumprimento de horários é inviável face ao entupimento do trânsito com automóveis privados. E, mais que tudo, os seus trabalhadores são tratados de forma desigual aos seus congéneres de Lisboa e do Porto (por exemplo, os 260 motoristas dos SMTUC desempenham funções de grande responsabilidade para que se qualificaram mas têm o estatuto indiferenciado e sub-remunerado de assistentes operacionais).

Pensar grande, para Coimbra como para o país, é ter uma estratégia que resolva os problemas das pessoas e não ter umas tiradas que escondem a incapacidade (ou falta de vontade) de proceder a essa solução. Valorizar os transportes públicos de Coimbra não é pensar pequeno assim como anunciar, sem preparação nem credibilidade, um aeroporto não é pensar grande. Para Coimbra como para o país, a utopia realista que vale é a da exigência cidadã que desencadeia respostas concretas e responsáveis.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 16 de setembro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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